Anfiteatro Manoel de Barros. Thalya Godoy

Há fogo sob nossas cabeças. É fim de inverno e início de primavera no Hemisfério Sul. É tempo de estiagem. O Centro-Oeste queima. Altas temperaturas e fumaça no céu, impedindo enxergar o horizonte com nitidez. Para ver é preciso estreitar a visão. Nessa visão turva, o necessário ato de forçar os olhos deve ser empreendido por todos. É preciso estreitar a visão para olhar ao lado e verificar quem está em pé, quem está próximo. Estreitar a visão. Ver. Por vezes, essa ação é relegada, mas é no perceber a situação que poderemos entrever a sua alternância, sua possibilidade instável e a transformação.

Desde o início da pandemia por COVID-19 e, por consequência, a necessidade de isolamento social, o que se discute é o pós-pandemia. É a primeira crise sanitária do século, a primeira crise no âmbito da globalização, das mídias e das redes sociais. A
quem tem acesso a elas, foi possível ouvir e falar e opinar como será o mundo e o país Brasil após a vacinação em massa, após a saída do isolamento. Não sei prever sobre esse período futuro, há ainda muitas instabilidades. No entanto, um exercício é possível: aprimorar o olhar sobre o presente.

Fixo o olhar especificamente para a arte, para a arte teatral, para a arte teatral produzida e apresentada em Campo Grande. Uma trajetória longa e em contínua produção de peças teatrais, grupos de atores/atrizes e cursos de formação. Todavia,
devemos atentar o olhar para os espaços de apresentação das artes da cena, se estipularmos a área central de Campo Grande é fácil pontuar o Teatro Prosa, o Teatro Aracy Balabanian, o Teatro do Paço, o Teatro Dom Bosco, já para outras regiões o
Teatro Glauce Rocha, o Teatro da UEMS. Esses espaços de apresentação e de manifestação estavam sendo utilizados pela classe teatral antes desse período de suspensão? Estavam todos em pleno funcionamento? Claro é que não apenas desses
espaços a apresentação teatral pode depender, por conta disso os grupos se desdobram para levantar o próprio ambiente de recepção e de atuação ao público. No entanto, isso não é caráter heroico a ser aplaudido, até porque a tarefa da atriz e do ator não deveria ser se desdobrar em montar, dirigir, construir, produzir… o aplauso deve estar para o espetáculo.

Estreitar a visão perante os espaços teatrais da cidade é entrever estagnação, pois temos o Teatro Municipal do Paço fechado há mais de 20 anos e sem previsão de abertura. Cadê a chave da porta do teatro? O Teatro Aracy Balabanian já há 4 anos em
reforma. Para além dessas questões de não funcionamento, cabe olhar aos espaços dos teatros universitários. Pouco viáveis ao acesso, garantido à comunidade acadêmica e a quem possui seu próprio veículo. O que quero ressaltar é a inviabilidade do trabalhador campo-grandense acessar esses espaços de ônibus após o período de trabalho. A alternativa recai então sobre as atrizes e os atores na propagação e na acessibilidade de suas dramaturgias e encenações teatrais.

É preciso, portanto, rever os espaços teatrais da cidade de Campo Grande, é preciso garantir que se abram mais espaços adequados aos diferentes tipos de corpos e tipos de acesso. É válido sim que os grupos e coletivos possuam sua sede, é válido que os espaços teatrais não estejam restritos ao centro da capital. Porém, é preciso garantir espaços outros para uma troca de experiências ao assistir teatral, para receber apresentações teatrais de outras cidades e estados, para difundir e naturalizar esses espaços de arte e de encontro para a cidade. Forçar a visão e entrever por entre a fumaça é ação de atentarmos a fim de não existir retrocesso e sim progresso. Ainda em tempo, o espaço democrático de acesso à cultura é formação de novos espectadores. É preciso conhecer o espaço teatral, como funciona o seu ambiente, que ações são solicitadas ao espectador. Formar espectadores para além do acesso é mostrar que o teatro é para todos. Que o teatro é um espaço do convívio ao comum.

Assim, fixar o olhar para esses espaços visa entender a situação do agora, projetar e construir novos futuros. A produção teatral não deve ficar restrita ao como era antes de 2020, é preciso viabilizar novos lugares, novas ações, novos espaços, para
quando for possível sentar lado a lado no anseio pelo terceiro sinal, que existam pessoas ao lado, ouvidos e olhos atentos.

Escrito por: Mariana Arantes

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