Ele chefiou cartórios judiciais por quase 40 anos

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Sua experiência no cartório extrajudicial de Nova Andradina foi o que motivou o convite para ser escrivão do Fórum de lá, por ocasião da instalação do Estado de Mato Grosso do Sul em 1979. Era preciso colocar o recém-criado Poder Judiciário em funcionamento também nas Comarcas do interior e Antônio Carlos Albergueti Garcia recebeu esse convite diretamente do Juiz.

Antônio Carlos conta que o Fórum começou a funcionar num anexo da Prefeitura construído para abrigar os dois gabinetes de Juiz, dois cartórios, além de uma sala para a Defensoria Pública e outra para o Ministério Público. Aliás, todos os poderes da cidade ficavam próximos no entorno da Prefeitura.

Ele foi lotado na 1ª Vara, privativa de processos envolvendo menores de 18 anos e os casos do Tribunal do Júri. As sessões de julgamento ocorriam no plenário da Câmara Municipal. Para compartilhar o espaço, os vereadores realizavam suas sessões à noite e, de dia, ocorriam os júris populares. Quando os julgamentos se estendiam além da conta, era preciso suspender as sessões da Câmara.

Ser escrivão naquele tempo também era bem diferente dos dias atuais. O Juiz não tinha assessoria e quem acompanhava o júri era o próprio Antônio Carlos, cuja agilidade nas máquinas de datilografia dos tempos de cartório extrajudicial era muito bem aproveitada para teclar, na hora, os interrogatórios dos réus e os depoimentos das testemunhas. “Tínhamos um, dois servidores na vara, quando muito. Fazíamos todo o serviço de apoio ao Juiz”, explica.

Quando veio o primeiro concurso para o Tribunal, Garcia prestou para escrivão em Ivinhema. Mudou-se para a Comarca em 1981. Casado e pai de três filhos, Antônio era reconhecido por ser um escrivão ágil, prático, bom de memória e de datilografia. Seu sonho na época era mudar-se para a Capital. Quando recebia as correições na região de Ivinhema, ele costumava ser solicitado pela equipe da Corregedoria-Geral de Justiça do TJMS para seguir com eles nas Comarcas próximas. Fazia os termos e o que mais fosse necessário.

A carreira de escrivão naquele tempo tinha a possibilidade de promoção, semelhante à existente na Magistratura. E foi assim que chegou à Capital em 1988, promovido para a 2ª Vara Cível de Campo Grande, com competência para Família e Sucessões. Antônio ocupou a vaga deixada pelo então escrivão da vara, Geraldo de Almeida Santiago (atual Desembargador do TJMS), o qual havia iniciado naquele ano sua carreira na Magistratura sul-mato-grossense.

Trabalhou no Fórum de Campo Grande até a criação dos Juizados Especiais, no início dos anos 2000, quando foi convidado a chefiar o cartório da 1ª Vara dos Juizados, instalada na Avenida Calógeras, em frente ao Hotel Concord. A implantação dos juizados no Estado criou a jornada noturna, período em que ocorriam as audiências.

Como escrivão responsável por um dos cartórios desse início dos Juizados Especiais, Antônio Carlos recorda da demanda intensa. Além de permanecer as oito horas diárias em atividade, avançava noite adentro, muitas vezes até as 22, 23 horas e levava serviço para casa nos fins de semana.

Mas tudo era muito gratificante, conta ele. Foi um tempo no qual a população mais simples teve acesso ao Judiciário pela primeira vez. Os serviços eram praticamente todos gratuitos. “Muitas vezes parávamos um pouco o serviço e ficávamos nos corredores acompanhando o desenrolar das audiências. Chegava de tudo. Era interessante e curioso para nós servidores descobrirmos o que seria feito com as situações discutidas, tantas delas pitorescas”.

Com certo saudosismo, Antônio recorda desse tempo, algo inviável nos dias atuais. Ele conta que certa vez atendeu uma senhora que veio cobrar cinco coxinhas vendidas para um pedreiro que não honrou a dívida. “Ela vivia disso. Eu a atendi, e até comentava, esse caso vai entrar para história, mas eu vou atender a senhora. E de fato abrimos o processo, o pedreiro compareceu à audiência e conseguimos que ela recuperasse o valor devido”.

Antônio dedicou diversos anos chefiando cartórios dos Juizados Especiais. Trabalhou muito tempo na Avenida Costa e Silva, na chamada Casa da Cidadania, onde também funcionavam as Turmas Recursais. Viu surgir por lá a Justiça Comunitária e a Itinerante.

Seu período nos juizados, sobretudo na Casa da Cidadania, é o tempo que mais lhe marcou. Foi onde conseguiu ajudar o público de baixa renda, com pouca instrução. “Era gratificante pois víamos a grande maioria das pessoas sair satisfeita porque resolvíamos os problemas delas”.

Ele ainda pegou a mudança para o Juizado Central, instalado em 2008 na rua Joaquim Murtinho. Mudaram muito as coisas nessa época. Antônio se tornou diretor de cartório das seis varas criminais, enquanto outro colega escrivão assumiu os cartórios cíveis. Chegou até a visitar a obra do Cijus, mas preferiu não encarar a nova mudança.

Já era tempo de parar. Tudo já estava muito diferente, embora a tecnologia facilitasse ao fazer boa parte do serviço. Por outro lado, as relações humanas foram ficando muito distantes para seu gosto. Resolveu se aposentar em 2016, depois de 37 anos de dedicação ao Poder Judiciário de Mato Grosso Sul e hoje tem a missão de chefiar, com muito gosto, a cozinha de sua casa.

Fonte: Ascom TJ_MS