Teste começou a ser oferecido em hospital privado de Porto Alegre e pode reduzir a necessidade de exames invasivos; ainda não há previsão de chegada ao SUS
Um exame de sangue que pode facilitar a investigação do Alzheimer começou a ser oferecido no Brasil nesta quinta-feira (15), com a promessa de reduzir a necessidade de procedimentos mais invasivos para identificar alterações associadas à doença. Por enquanto, o teste está disponível na rede privada em um único local: o Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre (RS), e custa cerca de R$ 3 mil.
O exame mede a proteína p-tau217, relacionada a alterações biológicas observadas no cérebro de pessoas com Alzheimer. A indicação é restrita a pacientes que já apresentam sintomas e passaram por avaliação médica com suspeita da doença. Um resultado positivo, isoladamente, não confirma demência.
A chegada do teste ao país foi autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que regularizou a família de produtos usada na análise em 17 de agosto. Ainda não há previsão para a oferta pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Como funciona o exame
A proteína p-tau217 é uma forma modificada da tau, encontrada nas células nervosas. A concentração dessa proteína no sangue acompanha o acúmulo de placas de beta-amiloide no cérebro, uma das alterações biológicas associadas ao Alzheimer.
O teste não mede diretamente a demência. Ele identifica um sinal que pode ajudar o médico a investigar se os sintomas cognitivos estão relacionados à doença. A interpretação precisa considerar o histórico do paciente, a avaliação clínica e outros exames.
O resultado pode ser positivo, negativo ou inconclusivo. Segundo Eduardo Zimmer, responsável pela implementação do exame no Hospital Moinhos de Vento, entre 15% e 20% dos testes podem ficar na faixa intermediária. Nesses casos, o especialista pode recomendar um exame de imagem chamado PET, análise do líquor — líquido que envolve o cérebro e a medula espinhal — ou repetir o teste de sangue após 12 meses.
Qual é a precisão do teste
Um estudo publicado em 2025 na revista científica Nature Medicine avaliou a plataforma Lumipulse, da fabricante belga Fujirebio, em 1.767 pessoas com sintomas cognitivos atendidas na Suécia, na Espanha e na Itália.
Os pesquisadores compararam os resultados do sangue com os da análise do líquor, utilizada como referência para identificar as alterações. Quando foi adotado um único limite para classificar os resultados, os dois exames coincidiram em 89% a 91% dos casos em serviços especializados. Com dois limites de referência, a concordância subiu para 92% a 94%, mas uma parcela dos participantes ficou sem resultado definido.
O estudo também identificou limitações. A proporção de resultados negativos corretos variou de 77% a 90%, conforme o grupo analisado. Isso significa que, em determinadas situações, o exame pode não identificar uma alteração que está presente. Entre pessoas com 80 anos ou mais, a precisão foi menor.
A validação realizada com amostras no hospital brasileiro ainda não havia sido publicada em revista científica no material divulgado. Portanto, os resultados locais ainda precisam passar pela avaliação por pares.
Quem pode fazer o exame
O teste é indicado para pessoas que já apresentam sintomas e têm suspeita clínica de Alzheimer. De acordo com as informações do produto, ele é destinado a pacientes com mais de 50 anos, já que o significado dos resultados em pessoas mais jovens não foi estabelecido.
O neurologista Renato Anghinah, professor da Faculdade de Medicina do ABC e livre-docente da Universidade de São Paulo (USP), ressalta que o exame faz sentido quando a avaliação médica e os testes cognitivos identificam algum declínio, mesmo que leve.
Uma queixa isolada de esquecimento, sem outros sinais de alteração cognitiva, não é suficiente para justificar o teste. Da mesma forma, o uso em pessoas sem sintomas não tem significado clínico estabelecido. A capacidade de prever o aparecimento futuro da doença ainda está em avaliação.
Mesmo quando o resultado indica alterações biológicas compatíveis com Alzheimer, o diagnóstico depende da combinação dessas informações com os sintomas e a avaliação médica.
Exame pode reduzir procedimentos invasivos
Até agora, a investigação de alterações biológicas relacionadas ao Alzheimer pode envolver o PET amiloide, exame de imagem que identifica o acúmulo da proteína no cérebro, ou a análise do líquor, que exige uma punção lombar para coletar o material.
O exame de sangue tem a vantagem de ser menos invasivo e pode facilitar o acesso à investigação. O PET exige estrutura especializada e tem custo elevado, enquanto a coleta do líquor envolve um procedimento que pode causar desconforto.
A possibilidade de substituir os exames tradicionais depende, porém, da situação clínica. Resultados inconclusivos podem exigir exames complementares, e determinadas decisões terapêuticas ainda dependem de métodos específicos de imagem.
Quando o teste pode chegar ao SUS
Apesar da oferta na rede privada, não há data definida para a incorporação do exame ao SUS. O Ministério da Saúde informou que nenhuma solicitação para avaliar o teste de p-tau217 havia chegado à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), etapa necessária para analisar a inclusão de novas tecnologias na rede pública.
A avaliação considera critérios como eficácia, segurança, custo-efetividade e impacto no orçamento público. O hospital manifestou expectativa de que a tecnologia seja analisada ainda neste ano por meio de parcerias do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS), mas o Ministério da Saúde informou que não há projeto em execução com essa tecnologia até o momento.
O hospital também planeja integrar o exame aos planos de saúde ainda em 2026, mas não divulgou operadoras ou datas, e a cobertura não está confirmada.
Diagnóstico precoce pode ampliar opções de tratamento
A identificação mais rápida da causa dos sintomas pode ajudar o paciente e a equipe médica a planejar os próximos passos. Para alguns pacientes em fases iniciais, existem tratamentos que podem retardar a progressão da doença, embora não a interrompam.
No Brasil, medicamentos como donanemabe e lecanemabe são utilizados em situações específicas, conforme avaliação médica e critérios de indicação. Os benefícios variam entre os pacientes e dependem do estágio da doença.
Pessoas que percebem esquecimentos frequentes ou outras mudanças cognitivas devem procurar avaliação de um profissional de saúde. Neurologistas, geriatras e psiquiatras podem investigar as causas dos sintomas e decidir se o exame de sangue é apropriado.











