Hospital prioriza urgências e emergências enquanto negocia novos repasses com Estado e município; médicos acumulam até cinco meses de pagamentos atrasados
A crise financeira da Santa Casa de Campo Grande levou o hospital a restringir o atendimento a pacientes encaminhados oficialmente pela rede pública, com prioridade para casos de urgência e emergência. A medida ocorre enquanto a instituição negocia um novo contrato com o poder público e enfrenta atrasos nos pagamentos a médicos e fornecedores.
A mudança foi anunciada pela gestão provisória e ocorre em meio à falta de recursos para a compra de materiais e insumos necessários aos procedimentos. A orientação é que pacientes sem encaminhamento oficial do Complexo Regulador Estadual (CORE) procurem outras unidades da rede de saúde. “Não tem porta aberta”, afirmou o gestor provisório da Santa Casa, Luiz Alberto Hiroki Kanamura, ao explicar que o hospital pretende concentrar os recursos disponíveis nos casos que exigem atendimento urgente.
Segundo a administração, a restrição busca evitar que a falta de materiais comprometa o atendimento de pacientes em estado grave. Parte dos insumos utilizados pela instituição é compartilhada entre diferentes tipos de procedimentos, o que aumenta a pressão sobre os estoques em um cenário de dificuldades financeiras.
Dívida chega a R$ 810 milhões
A Santa Casa acumula cerca de R$ 810 milhões em dívidas. Desse total, aproximadamente R$ 180 milhões correspondem ao passivo circulante, que reúne obrigações financeiras de curto prazo.
A instituição tenta renegociar o contrato de prestação de serviços com as secretarias municipal e estadual de Saúde. O acordo atual prevê repasses mensais de cerca de R$ 32,8 milhões, enquanto a proposta em discussão eleva o valor para aproximadamente R$ 37,4 milhões.
Mesmo com o aumento, a quantia ainda ficaria abaixo das despesas mensais estimadas pelo hospital, que chegam a R$ 54 milhões. A receita mensal informada pela administração é de aproximadamente R$ 35 milhões.
O novo contrato ainda não foi assinado porque as partes não chegaram a um consenso sobre os valores. A negociação também envolve a adequação dos serviços prestados pela Santa Casa às necessidades da rede pública.
Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande informou que não havia sido comunicada oficialmente sobre a decisão de restringir os atendimentos. A pasta afirmou que, conforme o convênio vigente, o fluxo de encaminhamento de pacientes seguia normalmente.
Médicos estão sem receber há meses
Os atrasos nos pagamentos também ameaçam a continuidade de serviços especializados. Segundo a gestão do hospital, médicos contratados como pessoas jurídicas (PJs) estão há quatro a cinco meses sem receber, e a dívida com esses profissionais chega a cerca de R$ 40 milhões.
Entre as especialidades afetadas estão anestesiologia, cirurgia cardíaca, cirurgia vascular, urologia, hematologia e oftalmologia.
De acordo com o Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul (Sinmed-MS), cerca de 300 profissionais estão sem receber desde junho, e existe o risco de novas equipes interromperem os atendimentos. A entidade aponta preocupação especial com a ortopedia, área importante para o atendimento de vítimas de acidentes de trânsito.
A possível saída de profissionais pode afetar procedimentos de alta complexidade pelos quais a Santa Casa é referência, incluindo cirurgias cardíacas e torácicas e atendimentos neurológicos.
Ministério Público cobra plano para manter serviços
A situação financeira do hospital foi discutida em audiência acompanhada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS). O órgão alertou que, mesmo com o aumento previsto nos repasses, a Santa Casa poderá continuar registrando um déficit mensal de até R$ 19,7 milhões.
O Ministério Público cobra a apresentação de um plano de ação para garantir a continuidade dos atendimentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
A gestão provisória informou que duas auditorias estão em andamento: uma para analisar os processos internos e outra voltada à situação financeira. A administração também revisa os serviços oferecidos para orientar as negociações com o Estado e o município.
Ainda não há prazo definido para a assinatura do novo contrato ou para a normalização dos atendimentos. Enquanto isso, a instituição tenta equilibrar as despesas, renegociar dívidas e manter os serviços considerados prioritários para a rede pública de saúde.





















