Fórum de Capital Humano: Pondé diz que longevidade e tecnologia desafiam o futuro do trabalho

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Foto: Divulgação

Nos minutos que antecederam a palestra magna de Luiz Felipe Pondé no 3º Fórum Fiems de Capital Humano, realizado nesta terça-feira em Campo Grande, o filósofo discutiu em uma entrevista exclusiva alguns desdobramentos do assunto que estava prestes a abordar: os desafios da mudança. “Essas mudanças são fruto das relações concretas de trabalho que geram tecnologia e, com isso, riqueza e resultados”, descreve. 

Para o filósofo, falar sobre mudanças no âmbito do capital humano representa discutir temas como a inclusão de pessoas com mais idade nos ambientes de trabalho, o balanço entre as esferas da vida pessoal e profissional nas mídias sociais e a relação entre a performance humana em meio às inúmeras inovações em inteligência artificial. Ele diz que é praticamente inevitável escapar de mudanças como essas – ou até mesmo escolher quais terão mais impacto sobre as estruturas das relações de trabalho.

Ao conversar sobre o desafio de se valorizar o capital humano em meio a tantas variações e tendências nas empresas, especialmente no que diz respeito à tecnologia, o filósofo sugere a consideração de questões essenciais para se aproximar da resposta. “Algo que talvez fosse importante é justamente uma capacitação no sentido de se refletir o que é humano. Onde você adquire isso? Em repertorio literário, filosófico, psicológico. Porque não adianta só dizer que, a partir de agora, com a inteligência artificial, a gente vai ter que ser mais humano quando a gente não sabe o que é ser humano”.

Nesse contexto, Pondé reitera que a qualificação profissional se faz ainda mais necessária, especialmente considerando um universo em que o capital se reproduz pela tecnologia. “É aí que você constrói capacidade cognitiva, repertório de conhecimento e referências. A capacitação e a formação são fundamentais”.

Desafios econômicos e sociais da longevidade

Depois da entrevista, um dos pontos principais abordados por Pondé durante a palestra foi o impacto do aumento da expectativa de vida. Para o filósofo, embora viver mais seja um desejo coletivo, isso nem sempre ocorre em condições adequadas. “A longevidade não acontece em boas condições para a maior parte da população”, disse. “Fica difícil participar da cadeia produtiva e de consumo quando você tem uma aposentadoria ruim.”

Ele alertou que o envelhecimento populacional tende a se tornar um problema econômico estrutural. “Cada vez mais teremos pessoas com mais de 60 anos e menos jovens. E não dá para sustentar um monte de gente que não trabalha. Uma hora a conta chega”, afirmou.

Modernidade valoriza ruptura e descarta o passado

Pondé também explicou que as mudanças atuais fazem parte de um padrão histórico da modernidade, caracterizado por rupturas constantes. “A modernidade é marcada pela desqualificação do que veio antes”, afirmou.

Segundo ele, essa lógica impacta diretamente o mercado de trabalho e a vida social, especialmente para os mais velhos. “Você sente isso na pele quando é expulso do mercado de trabalho por causa da idade”, disse. “A gente trata pessoas como se fossem um iPhone antigo — como se não tivessem mais valor.”

Tecnologia amplia exclusões

Outro ponto destacado foi o papel da tecnologia na ampliação de desigualdades, especialmente entre gerações. Pondé citou a dificuldade de pessoas mais velhas em lidar com sistemas digitais como exemplo de exclusão. “Você tem três senhas, quatro cadastros, e um gerente que não existe. Isso produz exclusão”, afirmou.

Ele ressaltou que a sociedade ainda não encontrou respostas claras para esses problemas. “São mudanças que estão acontecendo e a gente não sabe direito o que fazer com elas”, disse.

Mudanças exigem compreensão histórica

Pondé defendeu que compreender as transformações atuais exige olhar para o passado. “Grande parte do que acontece hoje não é porque somos a melhor geração da história, mas porque processos históricos já estavam em curso”, explicou.

Ele citou, como exemplo, o impacto histórico da imprensa na Europa, que provocou conflitos e mudanças estruturais comparáveis às transformações tecnológicas atuais.

“O mundo muda o tempo todo, e geralmente muda rompendo com o que veio antes. Quanto mais rápido você entender isso, mais rápido vai entender o lugar em que está”, concluiu.