A oportunidade para trabalhar no TJMS surgiu num momento um tanto quanto inapropriado para exibir um belo sorriso. Catarina de Almeida Gonçalves era uma dona de casa com os filhos já crescidos no ano de 1979. Dona Cata, como todos a conheciam, estava em pleno tratamento dentário justo no dia em que um oficial de justiça foi encaminhado até sua residência para levá-la à entrevista de emprego.
“Precisavam de uma pessoa de confiança para fazer café para os Desembargadores e minha vizinha me indicou. Eu não fazia ideia o que era o Tribunal. Só sabia que era uma coisa importante e queria muito trabalhar, mas justo naquele momento? Havia extraído meus dentes. Não tive escapatória: ou eu embarcava no carro naquela hora com o oficial de justiça ou perderia a vaga. Então fui. Era lá na Câmara de Vereadores ainda e conversei com a mão na boca para disfarçar. A diretora me deu 15 dias para eu arrumar meus dentes e me apresentar já no prédio do Edifício Cosmos que estava sendo preparado para comportar a nova sede do recém-criado órgão estadual do Judiciário”.
O começo foi bem difícil, conta Dona Cata. A estrutura ainda estava sendo organizada e era só ela para preparar o café e servir aos Magistrados e servidores. Com o tempo, foi pegando o gostinho como cada Desembargador preferia seu cafezinho. Quando chegava visita de autoridade, como o Governador do Estado, ela já ficava esperta e passava um cafezinho novo que logo já lhe pediriam para servir.
Com o tempo o Tribunal foi crescendo e contrataram um garçom. Então ela não precisava mais servir. Ficava só na produção. E veio o chá gelado, além do café doce e amargo habitual. Preparou também muito cafezinho quando o TJ foi para a Rua Belizário Lima. E quando mudaram para a sede própria no Parque dos Poderes, as equipes de copa já eram maiores, distribuídas por andar e setor, embora o ambiente ainda não estivesse pronto. Mas a ordem era mudar para a sede própria e lá foram eles. Época em que começou a servir também o pingado e o requisitado toddynho gelado, que hoje já não está mais entre as opções disponíveis.
Mesmo assim, Dona Cata revela o segredo da receita que ficou na memória de muitos servidores. “Eram vidros de Toddy mesmo. O Tribunal sempre foi muito exigente na qualidade dos produtos. Eu batia ele no liquidificador, bem caprichado e geladinho. Ficava muito bom. Muitos filhos de Desembargadores, quando vinham visitar seus pais, davam uma passada lá na copa atrás do toddynho gelado. Vi muitos deles crescerem. Alguns viraram servidores, Magistrados e até Desembargadores. Não sei se eles se lembram de mim, mas eu lembro deles ‘gurizotes’. Parece que visitavam o Tribunal só pelo toddynho de tanto que gostavam”.
Dona Cata permaneceu ao longo de seus mais de 20 anos de atuação na copa que atendia aos Presidentes do Tribunal. Conheceu diversos deles e alguns se tornaram mais íntimos nas conversas cordiais, além de outros tantos Desembargadores que davam aquela passadinha lá no seu cantinho para pegar um cafezinho fresco saindo na hora.
No fim de sua carreira, cobria o turno da manhã, quando o Judiciário, fora do horário de atendimento ao público, ainda conserva uma movimentação menos intensa. E com os tempos de experiência se virando sozinha, resolvia o serviço de atendimento matinal rapidinho até que a calmaria de repente era suspensa por algum encontro ou visita inesperada. “Quando minha chefe chegava à tarde, eu só relatava que houve uma visita, um evento e eu havia preparado tudo. Ela até me indagava porque eu não a tinha acionado, mas não tinha necessidade. Eu sabia o que precisava ser feito!”.
Assim Dona Cata deixou saudade no ano de 2000, quando pediu sua aposentadoria aos 60 anos de idade. O Tribunal de Justiça foi seu primeiro e único emprego. Prestou concurso para o cargo depois e deixou o exemplo a seus 5 filhos. Quatro deles optaram pela carreira pública: um no Exército, uma fez carreira no TRE e outras duas no TJMS.
Fonte: Ascom TJ-MS









