O envelhecimento da população brasileira tem ampliado o debate sobre a necessidade de garantir respeito, proteção e qualidade de vida às pessoas idosas. Em Mato Grosso do Sul, esse compromisso ganhou reforço com a Lei Estadual 5.546/2020, de autoria do deputado estadual Renato Câmara (Republicanos), que instituiu o Junho Prata como mês de enfrentamento à violência contra a pessoa idosa e o incluiu no Calendário Oficial de Eventos do Estado.
A proposta busca sensibilizar a sociedade para um problema que, muitas vezes, permanece invisível. Além de estimular a conscientização, a legislação permite a intensificação de ações educativas, palestras, campanhas e atividades voltadas à promoção dos direitos das pessoas com 60 anos ou mais.

Autor da lei, o deputado Renato Câmara destaca que o envelhecimento da população exige atenção permanente do poder público e da sociedade. “A pessoa idosa merece viver com dignidade, autonomia e segurança. O Junho Prata nasceu justamente para ampliar essa reflexão e fortalecer uma rede de proteção capaz de prevenir situações de violência, abandono e negligência. Precisamos falar sobre esse tema para que ele deixe de ser invisível”, afirma o parlamentar.
Segundo Renato Câmara, muitas violações acontecem dentro do próprio ambiente familiar e nem sempre são identificadas rapidamente. “Muitas vezes a violência não aparece em forma de agressão física. Ela pode estar presente na exploração financeira, na humilhação, no isolamento ou na falta dos cuidados básicos. A informação é uma ferramenta fundamental para que a sociedade reconheça esses sinais e saiba como agir”, acrescenta.
Mato Grosso do Sul x envelhecimento

Dados do Observatório da Cidadania de Mato Grosso do Sul, com base no Censo Demográfico de 2022 do IBGE, mostram que o Estado possui 391.091 pessoas idosas, o equivalente a 14,18% da população sul-mato-grossense. O crescimento desse público traz novos desafios para as políticas públicas e reforça a necessidade de ações permanentes de proteção e garantia de direitos.
A preocupação não é por acaso. Levantamento do Atlas da Violência, aponta que Mato Grosso do Sul figura entre os estados com maiores índices de notificações de violência interpessoal contra pessoas idosas, evidenciando a importância da conscientização e do fortalecimento das redes de proteção.

A médica geriatra do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS), Tainá Pinheiro, explica que a violência contra a pessoa idosa nem sempre deixa marcas físicas evidentes. “Muitas vezes os primeiros sinais aparecem por meio de mudanças no comportamento, no humor ou na forma como aquela pessoa se relaciona com os outros. Tristeza persistente, medo, isolamento social, perda de interesse por atividades que antes davam prazer e relatos de humilhações ou ameaças são situações que merecem atenção”, observa.
A especialista ressalta ainda que hematomas frequentes, dificuldades financeiras repentinas, negligência com alimentação, higiene ou uso de medicamentos também podem indicar situações de abuso.
Além dos danos imediatos, ela alerta para os impactos duradouros dessas violações. “A violência está associada ao agravamento de doenças já existentes, ao aumento do risco de quedas, hospitalizações e perda da independência. Também são frequentes sintomas de ansiedade, depressão e sofrimento emocional. Combater a violência contra a pessoa idosa é promover envelhecimento saudável, autonomia e qualidade de vida”.

Quando o silêncio também é violência
Para a psicóloga Mirela Azevedo, a violência psicológica costuma ser uma das formas mais difíceis de identificar justamente porque se instala de maneira gradual. “A violência contra a pessoa idosa muitas vezes não começa com a agressão física; ela se instala antes, de forma silenciosa, por meio da humilhação, do controle, do medo e da opressão cotidiana”, afirma.
Segundo ela, medo excessivo, retraimento, alterações no sono e no apetite, ansiedade, tristeza persistente e perda de espontaneidade são sinais que merecem atenção. “Em muitos casos, a violência acontece dentro da própria rede de confiança, praticada por familiares, cuidadores ou pessoas próximas. Quando a pessoa idosa passa a se calar para evitar conflitos ou demonstra medo diante de alguém próximo, existe um sinal de alerta que não pode ser ignorado”, ressalta.
A psicóloga destaca ainda que familiares, amigos e vizinhos têm papel fundamental na prevenção. “Na prevenção, o vínculo é uma forma concreta de proteção. Presença, escuta, atenção às mudanças de comportamento e disposição para agir podem interromper situações de abuso antes que elas se agravem”.
O impacto da violência contra a pessoa idosa vai além das consequências imediatas e pode comprometer significativamente a saúde física e emocional. Segundo o médico geriatra José Roberto Pelegrino, situações de maus-tratos, negligência e isolamento social contribuem para o agravamento de doenças e afetam diretamente a qualidade de vida dessa população.

“A violência contra a pessoa idosa muitas vezes não é escancarada. Ela acontece de forma sutil, por meio do isolamento, da negligência ou da exploração financeira. Mesmo assim, provoca sofrimento e pode agravar doenças físicas e emocionais, comprometendo a qualidade de vida e a autonomia da pessoa idosa”, afirma Pelegrino.
Respeito e cuidado
Coordenadora da Linha de Cuidados Especiais da Santa Casa de Campo Grande, a médica especialista em cuidados paliativos Fernanda Romeiro explica que os sinais de violência podem surgir tanto no aspecto físico quanto emocional. “Hematomas sem explicação, perda de peso, falta de higiene adequada e mudanças bruscas de comportamento são alguns dos indícios mais frequentes. Muitas vezes o paciente se torna mais retraído, mais silencioso ou apresenta alterações importantes de humor”, explica.
Ela também chama atenção para a violência patrimonial, caracterizada pelo uso inadequado dos recursos financeiros da pessoa idosa. “Quando a aposentadoria ou outros benefícios são administrados de forma inadequada, o idoso pode deixar de receber os cuidados necessários. Isso pode resultar em piora da saúde, perda mais rápida da funcionalidade, desnutrição e isolamento social”.
Para a médica, a construção de um envelhecimento saudável passa pelo reconhecimento da individualidade de cada pessoa. “Precisamos enxergar o idoso como alguém que possui história, valores, desejos e autonomia. Suas opiniões e vontades precisam ser respeitadas. Também é importante compreender que os cuidadores e familiares necessitam de suporte para evitar sobrecargas que podem comprometer a qualidade do cuidado oferecido”.

Denunciar é um ato de proteção
A subsecretária de Políticas Públicas para Pessoas Idosas, Larissa Diniz Paraguassu, destaca que o Governo do Estado mantém ações permanentes voltadas à promoção dos direitos da população idosa por meio do programa estadual Envelhecer é Legal.
Durante o Junho Prata, municípios de diversas regiões promovem palestras, campanhas educativas, rodas de conversa, capacitações e mobilizações comunitárias voltadas à prevenção das violências e ao fortalecimento das redes de proteção.
Casos suspeitos podem ser denunciados pelo Disque 100, canal nacional de proteção aos direitos humanos que funciona 24 horas por dia, além das delegacias, Ministério Público, Defensoria Pública, CRAS, CREAS e demais órgãos da rede de atendimento.
A orientação dos especialistas é clara: diante de qualquer suspeita, a denúncia deve ser feita. Afinal, proteger a pessoa idosa é uma responsabilidade compartilhada entre famílias, sociedade e poder público.





















