Mudança aprovada pelo CNPE busca reduzir impacto da alta do petróleo; uso do biocombustível começou nos anos 1930 e ganhou força com o Proálcool durante a crise do petróleo
A decisão do governo federal de elevar de 30% para 32% a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina reacende um capítulo histórico da política energética brasileira. A medida, anunciada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) nesta terça-feira (14), foi adotada como estratégia para amenizar os impactos da alta do petróleo no mercado internacional e fortalecer o uso de combustíveis renováveis no país.
A nova composição terá validade inicial de 180 dias e ocorre em meio à pressão provocada pela escalada dos conflitos entre Estados Unidos e Irã, que afetaram a oferta global de petróleo e elevaram o preço do barril no mercado internacional.
Embora a decisão seja recente, a presença do etanol na gasolina faz parte da história brasileira há quase cem anos. O primeiro passo ocorreu em 1931, quando um decreto federal determinou que toda gasolina importada recebesse uma mistura obrigatória de álcool. A implementação foi gradual: começou com 2% em julho daquele ano e chegou a 5% em outubro.
A política tinha como principal objetivo reduzir a dependência de combustíveis importados e estimular a produção agrícola nacional. Pouco depois, em 1933, o governo criou o Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), responsável por regular o setor sucroalcooleiro e direcionar o excedente da produção de cana para a fabricação de combustível.
Em 1938, uma nova regulamentação ampliou a exigência, tornando obrigatória também a adição de etanol à gasolina produzida no Brasil. A quantidade passou a ser definida pelas autoridades do setor energético conforme as necessidades do mercado.
Crise do petróleo impulsionou o etanol
A maior transformação, porém, ocorreu na década de 1970. Em 1973, a crise internacional provocada pelo embargo da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) fez o preço do barril saltar de cerca de US$ 1,90 para mais de US$ 11 em apenas dois anos, pressionando economias dependentes da importação de petróleo, como a brasileira.
Diante desse cenário, o governo lançou, em novembro de 1975, o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), considerado uma das maiores iniciativas de substituição parcial de combustíveis fósseis por energia renovável já implementadas no mundo.
O programa foi estruturado sobre três pilares: ampliar a mistura obrigatória de etanol à gasolina, expandir a rede de abastecimento do combustível em todo o país e incentivar a produção de veículos movidos exclusivamente a álcool.
Além de reduzir a dependência do petróleo importado, o Proálcool aproximou governo, universidades, fabricantes de veículos e produtores de cana-de-açúcar, impulsionando o desenvolvimento de tecnologias que mais tarde resultariam nos motores flex.
Desafios marcaram os primeiros anos
Antes da consolidação do programa, o uso do etanol enfrentou diversos obstáculos técnicos. Nos anos 1970, oficinas realizavam adaptações artesanais em motores para funcionamento com álcool, alterando carburadores, velas e sistemas de ignição.
A ausência de padronização provocava problemas frequentes, como corrosão de componentes metálicos, vazamentos, dificuldades na partida em dias frios e entupimento dos carburadores.
As dificuldades começaram a ser superadas com investimentos em pesquisa e desenvolvimento promovidos pelo Proálcool. Em 1979, a Fiat lançou o 147 movido exclusivamente a álcool, conhecido popularmente como “Cachacinha”, primeiro automóvel produzido em série no Brasil com esse tipo de motorização.
O veículo foi resultado de anos de testes e marcou uma nova fase da indústria automobilística nacional, abrindo caminho para o avanço dos motores movidos a etanol e, posteriormente, dos modelos flex, hoje predominantes no mercado brasileiro.
Objetivo é reduzir impacto do petróleo
Com a nova elevação da mistura para 32%, o governo aposta novamente no etanol como alternativa para reduzir a dependência do petróleo, minimizar os efeitos das oscilações internacionais sobre o preço dos combustíveis e fortalecer uma matriz energética com maior participação de fontes renováveis.
A decisão também reforça uma estratégia adotada pelo Brasil há décadas, em diferentes momentos de crise internacional, utilizando o etanol como instrumento para ampliar a segurança energética e estimular a cadeia produtiva da cana-de-açúcar.

















