Nova caneta emagrecedora chama atenção por reduzir gordura no fígado, apontam estudos

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(Foto: Comunicação/SES)

Survodutida apresentou resultados promissores em pesquisa com pacientes obesos e amplia debate sobre benefícios além da perda de peso

Durante anos, a corrida entre as chamadas “canetas emagrecedoras” teve um objetivo claro: oferecer a maior perda de peso possível. Agora, uma nova geração de medicamentos começa a mudar esse cenário ao mirar benefícios que vão além da balança. A survodutida, molécula experimental apresentada durante o congresso anual da Associação Americana de Diabetes (ADA), nos Estados Unidos, chamou a atenção por reduzir significativamente a gordura acumulada no fígado, condição associada a doenças metabólicas graves.

Os resultados foram divulgados em um estudo de fase 3, a etapa final antes de um eventual pedido de aprovação regulatória, e publicados na revista científica Nature Medicine. A pesquisa acompanhou 216 adultos com obesidade e esteatose hepática, conhecida popularmente como gordura no fígado.

Segundo os dados, o medicamento reduziu em quase 60% o acúmulo de gordura no órgão. Além disso, 84% dos participantes apresentaram uma queda de pelo menos 30% na gordura hepática, contra 24% do grupo que recebeu placebo. Em cerca de 60% dos pacientes tratados, os níveis voltaram à faixa considerada normal. Também foram observadas reduções em marcadores de inflamação e lesão hepática, como a enzima ALT.

Para especialistas, o destaque dos novos estudos reflete uma mudança no foco das pesquisas sobre obesidade. Diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o endocrinologista Clayton Macedo afirma que, diante de medicamentos capazes de promover perdas expressivas de peso, a atenção se volta agora aos efeitos adicionais sobre a saúde.

“A pergunta deixou de ser apenas quanto cada remédio faz emagrecer. O interesse agora é entender quais outros benefícios metabólicos eles conseguem entregar”, explica.

Como a survodutida atua

Assim como medicamentos já conhecidos, a survodutida atua sobre o receptor do GLP-1, hormônio ligado ao controle do apetite e da saciedade. O diferencial é que ela também ativa o receptor do glucagon, substância que participa do metabolismo energético e exerce ação direta sobre o fígado e a utilização das reservas de gordura pelo organismo.

De acordo com Macedo, essa dupla atuação pode explicar os resultados observados na redução da gordura visceral e hepática. “Enquanto o GLP-1 ajuda a controlar a ingestão alimentar, o glucagon estimula a utilização da gordura acumulada, inclusive a que está nas vísceras e no fígado”, afirma.

A avaliação é compartilhada por Fernando Valente, coordenador do Departamento de Educação em Diabetes da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Para ele, embora parte da melhora seja consequência da perda de peso, os dados sugerem que o glucagon tenha um efeito próprio sobre a gordura hepática.

“O fígado possui muitos receptores para glucagon. Esse hormônio aumenta o gasto energético e favorece a utilização da gordura armazenada no órgão como fonte de energia”, destaca.

Exames mostram redução da gordura visceral

Outro estudo, publicado no New England Journal of Medicine com 725 adultos com obesidade e sem diabetes, reforçou essa hipótese. Um grupo de participantes foi submetido a exames de ressonância magnética capazes de diferenciar com precisão a gordura armazenada no fígado, nas vísceras e a massa muscular.

Os resultados indicaram redução de aproximadamente 34% na gordura visceral e de 63% na gordura hepática entre os pacientes tratados com survodutida. Os pesquisadores também observaram preservação da massa magra, indicando que a maior parte do peso perdido veio da eliminação de gordura, e não de músculo.

No mesmo estudo, a perda média de peso chegou a 16,6% após 76 semanas de tratamento, índice inferior ao registrado por medicamentos como a tirzepatida, mas acompanhado por melhora de indicadores como pressão arterial, triglicerídeos e circunferência abdominal.

Especialistas pedem cautela

Apesar dos resultados considerados promissores, médicos alertam que ainda não é possível afirmar que a survodutida seja superior às demais canetas emagrecedoras disponíveis ou em desenvolvimento. Isso porque os estudos foram realizados com populações e metodologias diferentes, sem comparação direta entre os medicamentos.

Fernando Valente ressalta que pesquisas envolvendo a semaglutida, por exemplo, utilizaram critérios distintos para avaliar a saúde do fígado, incluindo análises por biópsia hepática, o que impede uma comparação precisa.

“Não há estudos colocando essas moléculas frente a frente, avaliando os mesmos desfechos e utilizando a mesma metodologia. Por isso, não é possível afirmar que uma seja melhor do que a outra”, explica.

Os efeitos colaterais observados seguem o padrão da classe dos agonistas de GLP-1, com náuseas em cerca de 60% dos participantes e episódios de vômito em mais de 40%, principalmente no início do tratamento. Segundo os pesquisadores, a maioria dos casos foi considerada leve ou moderada.

Obesidade passa a ser o foco principal

A apresentação dos estudos durante o congresso da Associação Americana de Diabetes também evidenciou uma mudança de paradigma entre especialistas. Se antes a obesidade era tratada como consequência de outras doenças metabólicas, agora ela passa a ocupar posição central nas pesquisas e no desenvolvimento de novos medicamentos.

“Durante muito tempo se estudava o diabetes e, como efeito secundário, percebia-se que o paciente emagrecia. Hoje a lógica se inverteu: a obesidade é entendida como a doença que desencadeia várias outras condições”, afirma Macedo.

Nesse cenário, a nova geração de medicamentos não busca apenas promover perda de peso, mas também reduzir riscos cardiovasculares, melhorar a saúde do fígado, combater a apneia do sono e atuar sobre outros problemas relacionados ao excesso de gordura corporal. Para os especialistas, a disputa entre as canetas emagrecedoras entrou em uma nova fase, em que o principal diferencial pode estar nos benefícios metabólicos alcançados dentro dos órgãos, e não apenas nos quilos eliminados.