Comportamento ocorre quando adultos ignoram crianças para olhar o telefone; especialistas alertam para possíveis impactos na comunicação, no vínculo afetivo e na segurança infantil
Uma criança tenta contar uma novidade, mostrar um brinquedo ou pedir ajuda para lidar com uma emoção, mas o adulto à sua frente continua olhando para a tela do celular. Situações como essa, cada vez mais comuns em ambientes familiares, estão associadas ao chamado phubbing, comportamento que pode prejudicar a qualidade da interação entre pais e filhos.
O termo é formado pela combinação das palavras em inglês phone (telefone) e snubbing (esnobar ou ignorar). A expressão descreve o hábito de deixar de prestar atenção a alguém que está presente para se concentrar no celular.
O problema não está em utilizar o aparelho na frente das crianças, mas na frequência com que ele interrompe conversas, brincadeiras e momentos de convivência. Quando isso acontece repetidamente, a criança pode perceber que suas tentativas de comunicação não recebem a atenção esperada.
Em parques, restaurantes e salas de espera, por exemplo, é possível observar crianças tentando interagir enquanto os adultos permanecem concentrados em mensagens, redes sociais ou outras atividades digitais.
Como o uso do celular interfere na relação com os filhos
A presença e a participação dos pais são importantes para o desenvolvimento infantil. Conversas, brincadeiras, contato visual e respostas às manifestações das crianças ajudam a construir vínculos afetivos e favorecem a aprendizagem.
Em publicação sobre o assunto, a neuropsicóloga infantil Cristina Mendes Gigliotti Borsari, coordenadora do Setor de Psicologia do Sabará Hospital Infantil, alertou para os efeitos que o uso excessivo de telas pelos adultos pode ter no desenvolvimento dos filhos.
A distração frequente pode reduzir as oportunidades de troca entre pais e crianças. Quando uma criança tenta compartilhar uma descoberta ou expressar um sentimento, por exemplo, a resposta do adulto contribui para que ela se sinta ouvida e compreendida.
Isso não significa que toda interrupção provocada pelo celular cause prejuízos duradouros. O que merece atenção é o padrão de comportamento e a capacidade dos adultos de manter interações consistentes e acolhedoras no cotidiano.
Cinco áreas do desenvolvimento que merecem atenção
Estudos científicos apontam associações entre o uso de celulares pelos pais durante a convivência com os filhos e dificuldades em aspectos da comunicação e do desenvolvimento socioemocional. Uma revisão publicada na revista Child Development Perspectives, em 2022, destaca que a distração digital pode reduzir o contato visual, a atenção compartilhada e a capacidade de resposta dos adultos durante as interações.
Veja cinco aspectos que podem ser afetados:
1. Conexão emocional: quando as tentativas de interação são ignoradas repetidamente, a criança pode se sentir deixada de lado. Responder aos chamados, demonstrar interesse e acolher os sentimentos ajudam a fortalecer a relação com os pais.
2. Desenvolvimento cognitivo: brincadeiras, conversas e atividades compartilhadas criam oportunidades de aprendizagem. A distração frequente pode diminuir essas experiências e reduzir o envolvimento dos adultos nas descobertas dos filhos.
3. Vínculo afetivo e autoestima: a atenção e a disponibilidade emocional contribuem para que a criança desenvolva confiança nos cuidadores e se sinta segura para expressar suas necessidades.
4. Desenvolvimento da linguagem: o diálogo com os adultos ajuda a ampliar o vocabulário e a compreensão das palavras. Quando o celular interrompe essas trocas, a criança pode perder oportunidades de praticar a comunicação e receber respostas às suas tentativas de falar.
5. Segurança e supervisão: o uso do telefone durante atividades que exigem atenção, como acompanhar uma criança no parquinho ou atravessar a rua, pode fazer com que o adulto deixe de perceber situações de risco.
Uma meta-análise publicada em 2023, que reuniu 42 estudos e 56.275 crianças, também identificou associações entre o chamado phubbing parental e dificuldades de ajustamento socioemocional. Os autores ressaltam a importância de considerar os resultados das pesquisas ao avaliar os efeitos desse comportamento.
Como reduzir a interferência do celular na rotina
Mudar esse comportamento começa pelo reconhecimento de que o aparelho pode ocupar mais espaço do que o desejado nos momentos de convivência. Não é necessário abandonar a tecnologia, mas estabelecer limites para que ela não interrompa continuamente a relação com os filhos.
Algumas medidas simples podem ajudar:
- Reservar períodos do dia para brincar e conversar sem celulares por perto.
- Silenciar notificações durante as refeições e outras atividades em família.
- Guardar o aparelho quando a criança estiver contando algo importante ou pedindo ajuda.
- Se precisar atender a uma ligação ou responder a uma mensagem, explicar à criança o motivo e retomar a conversa assim que possível.
- Demonstrar, pelo próprio comportamento, como utilizar a tecnologia com equilíbrio.
A mudança também passa pelo exemplo. Crianças observam os hábitos dos adultos e aprendem com a maneira como eles se relacionam com as pessoas e com os dispositivos eletrônicos.
O objetivo não é exigir atenção ininterrupta dos pais, mas garantir que o uso do celular não se torne uma barreira constante à convivência. A qualidade das interações, a escuta e a disponibilidade para acolher as necessidades infantis são elementos importantes para uma relação familiar saudável.
Mais do que o tempo passado juntos, importa também a forma como esse tempo é compartilhado. Em muitos momentos, deixar o celular de lado pode ser uma maneira simples de demonstrar à criança que aquilo que ela tem a dizer merece ser ouvido.





















