Indígena mostra cápsula de tiro encontrada na ´area de conflito com policiais (Foto CIMI/Reprodução)

Pelo menos três índigenas que foram feridos durante o conflito armado de sexta-feira (25), em uma fazenda de Amambai, estão sendo ouvidos neste sábado (25) pela delegado da Polícia Civil Caio Macedo, que apura as circunstâncias do ocorrido. Conforme as informações, a investigação quer saber o envolvimento deles na ação, que culminou na morte de um indígena de 42 anos e deixou 11 pessoas feridas, entre esses estão adolescentes. Também é questionada a denúncia de ameaças por parte dos índios aos funcionários da propriedade, além de possíveis furtos.

Das vítimas do tiroteio, que envolveu um grupo de policiais militares do Batalhão de Choque (BPChoque), um indígena de 12 anos teve lesões por arma de fogo no fígado e está intubada em Ponta Porã, juntamente com outros dois adolescentes de 14 e 17 anos. Uma jovem de 22 anos precisou ser encaminhada para o Hospital da Vida, em Dourados, com o quadro de saúde estável. Outros três índigenas feridos já receberam a alta e estão sendo interrogados pela Polícia Civil. Além deles, três policiais foram baleados nas pernas e um no quadril, sendo transferidos de helicóptero até Campo Grande, onde passam bem.

O indígena morto foi identificado como sendo Vito Fernandes. Segundo informações do Hospital Regional de Amambai, ele não resistiu aos ferimentos e chegou ao hospital sem vida, com três perfurações de armas de fogo. Ainda na noite de ontem, os indígenas deixaram a sede da fazenda e retornaram para a aldeia. No local, cerca de 100 policiais, entre militares e federais, estão fazendo o controle da área.

Índios alegam ter direito à propriedade rural

A fazenda onde o conflito ocorreu pertence a uma empresa, mas o indígenas alegam ser um território ancestral denominado Kuripi/São Lucas. Em nota, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) pediu, com urgência, o envolvimento de órgãos federais, bem como do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), “a fim de controlar a situação e investigar os episódios”, detalhou.

A propriedade rural foi ocupada pelos indígenas Guarani Kaiowá ainda na noite de quinta-feira (23), sendo que na manhã da sexta as equipes do Batalhão de Choque foram deslocadas para atender ao chamado da comunidade para “coibir crime contra o patrimônio”. Na fazenda, houve um intenso conflito entre indígenas e policiais logo pela manhã e um segundo durante a tarde, quando até mesmo o helicóptero usado pelos militares para apoio acabou sendo atingido pelo disparo de uma arma de fogo.

Polícia Civil interroga indígenas sobre conflito armado em Amambai
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Segundo a polícia, o tiro foi efetuado pelos indígenas. — Foto: Reprodução

Na versão dos funcionários da fazenda, os indígenas invadiram a área na quinta-feira e, com a chegada do Batalhão de Choque naquele mesmo dia, chegaram a deixar a fazenda. No entanto, após a saída dos policiais, no mesmo dia, quatro indígenas voltaram a entrar armados na propriedade, onde fizeram disparos, ameaças e retomaram novamente o espaço.

Ao todo, 30 indígenas passaram a controlar a sede, promovendo ‘quebra-quebra’ dos objetos e maquinários e também furtando itens de valor. Diante disso, a gerência acionou a polícia mais uma vez.

O secretário de Estado de Justiça e Segurança Pública, Antonio Carlos Videira, explicou em coletiva de imprensa que a Polícia Militar foi acionada para atender crimes de competência do Estado. “Foram crimes comum contra o patrimônio e contra a vida. Não se trata de reintegração de posse”, disse. Ao todo, 100 policiais, entre militares e federais, foram mobilizados para atender a ocorrência na fazenda.

Ainda segundo Videira, há alguns dias foi registrado reclamações de lideranças indígenas da aldeia de Amambai sobre indígenas que trabalham em roças de maconha no Paraguai que foram para a aldeia tentar destituir a atual liderança devidamente eleita da aldeia. “Há cerca de um mês começamos capacitação de indígenas da aldeia para criação do conselho comunitário de segurança indígena a pedido das lideranças da aldeia, devido o aumento de crimes na aldeia”, explicou.

Para o secretário, é possivel que paraguaios vieram para dar suporte na invasão da propriedade, fornecendo as armas que foram utilizadas no conflito.

Em nota, a Grande Assembleia da Aty Guasu Guarani e Kaiowá destacou o sentimento de revolta e indignação com a ação contra o tekoha Guapoy (nome da região indígena), no município de Amambai. Os líderes indígenas nomearam o episódio como ‘Massacre de Guapoy’. “Foram atacadas crianças, jovens, idosos, famílias que decidiram, depois de muito esperar sem alcançar seu direito, retomar um território que sempre foi deles e que foi roubado no passado de nosso povo”, destaca a nota (leia na íntegra aqui).

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