Brasil corta juros antes de grandes economias e decisão levanta debate sobre riscos

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Sob o comando de Galípolo, o BC reduziu a taxa de juros em 0,25 ponto percentual (Foto: Lula Marques/Agência Brasil)

Banco Central inicia ciclo de redução após dois anos; especialistas apontam fatores internos e alertam para cenário externo instável

O Brasil iniciou um novo ciclo de queda dos juros após dois anos de taxas elevadas, enquanto parte das maiores economias do mundo ainda mantém postura cautelosa diante das incertezas globais. A decisão reacendeu o debate entre economistas e investidores: o país está se antecipando de forma estratégica ou assumindo riscos em um cenário internacional ainda instável?

A redução da taxa básica foi conduzida pelo Banco Central em meio a um contexto externo marcado por tensões geopolíticas, pressão sobre commodities e expectativas inflacionárias ainda sensíveis em diversas regiões. Apesar do aparente distanciamento em relação a países como Estados Unidos e membros da Europa, especialistas afirmam que o movimento brasileiro tem bases estruturais próprias.

Segundo o economista Enrico Gazola, o principal diferencial está no nível historicamente elevado dos juros no país. De acordo com ele, o Brasil parte de um patamar nominal e real muito superior ao das economias centrais, o que abre espaço técnico para cortes graduais sem caracterizar afrouxamento monetário.

“Isso permite ao Banco Central iniciar uma flexibilização lenta, mantendo ainda uma política monetária restritiva”, avalia.

Na mesma linha, o economista Hugo Garbe explica que o atual cenário é resultado do timing das decisões adotadas nos últimos anos. O Brasil começou a elevar os juros ainda em 2021, antes das principais economias globais, antecipando o combate à inflação.

Como consequência, o país atingiu mais cedo um nível considerado contracionista de juros reais, criando margem para iniciar o ciclo de cortes sem comprometer, inicialmente, o processo de desinflação.

Além do histórico de política monetária, fatores domésticos também contribuíram para a decisão. A inflação desacelerou em relação aos picos anteriores, a atividade econômica apresenta sinais de moderação e os juros reais brasileiros continuam entre os mais altos do mundo.

Para Gazola, esse conjunto de condições permitiu ao Comitê de Política Monetária (Copom) iniciar o movimento sem transmitir ao mercado uma sinalização de complacência. Mesmo após a redução, o nível real de juros permanece elevado na comparação internacional.

Cenário externo ainda preocupa

Apesar do espaço interno para cortes, economistas apontam que o principal risco está fora do país. O ambiente internacional, marcado por conflitos e volatilidade nos preços de energia e commodities, pode limitar o ritmo das próximas reduções.

Gazola destaca que a guerra envolvendo o Irã voltou a pressionar mercados globais, especialmente petróleo e cadeias produtivas, o que tende a contaminar expectativas de inflação em vários países.

Garbe observa que esse cenário gera efeitos ambíguos para o Brasil. A valorização de commodities pode beneficiar exportadores brasileiros, mas também pressiona preços domésticos, principalmente energia e alimentos.

Corte exige calibragem

Especialistas afirmam que a divergência entre o Brasil e economias avançadas não representa, por si só, um risco imediato. O ponto central, porém, está na condução do processo.

“O problema não é cortar juros antes dos Estados Unidos ou da Europa, mas fazê-lo em ritmo incompatível com o diferencial de juros, o comportamento do câmbio e a ancoragem das expectativas”, afirma Gazola.

Segundo ele, qualquer percepção de complacência pode pressionar o real, encarecer produtos importados e reacender a inflação.

Garbe reforça que o sucesso do ciclo dependerá da consistência da política econômica. Para o economista, fatores como controle fiscal e credibilidade das metas de inflação serão determinantes para sustentar a trajetória de queda.

A redução de 0,25 ponto percentual anunciada pelo Copom já era amplamente esperada pelo mercado financeiro e marca o início de uma fase que deverá avançar de forma gradual, acompanhando tanto a evolução da economia brasileira quanto o comportamento do cenário internacional.