Desenrola Brasil: como evitar que o alívio de limpar o nome vire nova dívida

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Desenrola Brasil entrou em vigor na última terça; cidadão pode buscar bancos para negociar (Foto: Paulo H. Carvalho/Agência Brasília)

Especialista alerta para cuidados nos primeiros meses após renegociação e risco de novo endividamento.

O Brasil fechou março de 2026 com 82,8 milhões de pessoas inadimplentes e um volume de dívidas que soma R$ 557 bilhões, cenário que impulsionou o governo a retomar e ampliar o Desenrola Brasil em uma nova etapa que já está em vigor e permite renegociação direta com bancos, com descontos que podem chegar a 90%.

A nova fase do programa foi lançada na última semana e amplia o alcance da iniciativa ao autorizar que consumidores endividados negociem diretamente com as instituições financeiras, sem necessidade de intermediários. A medida surge em meio ao maior nível de inadimplência já registrado no país, segundo o Mapa da Inadimplência da Serasa.

O levantamento aponta ainda que o valor médio das dívidas por pessoa chegou a R$ 6.728,51. O aumento do endividamento pressiona o sistema financeiro e reforça a busca por alternativas de renegociação e reorganização das contas.

Para quem tenta “recomeçar do zero” com o programa, especialistas alertam que o momento exige atenção redobrada para evitar um novo ciclo de dívidas logo após a regularização do nome.

O planejador financeiro Gabriel Pellicano destaca que os primeiros meses após o acordo são os mais sensíveis. Segundo ele, é nesse período que o consumidor tende a relaxar no controle dos gastos após a sensação de alívio de ter o nome limpo.

“É nesse momento que sentimos aquele alívio de ter o nome limpo, e a tentação comportamental de voltar aos velhos hábitos de consumo é muito maior”, afirma.

Entre as recomendações, Pellicano sugere fracionar o controle do orçamento por semana, em vez de mensalmente. “É muito mais fácil entender e controlar o que sai da carteira em sete dias do que em 30”, explica.

Outro ponto de atenção é a diferença entre necessidade e consumo por impulso. O especialista orienta aplicar a chamada “regra das 24 horas”, que consiste em esperar um dia antes de concluir uma compra. A ideia é reduzir decisões motivadas por impulso emocional.

“Se for apenas um impulso, a vontade passa; se for uma necessidade real, ela continua no dia seguinte”, diz.

O alerta também se estende aos sinais iniciais de descontrole financeiro, como imprevistos que já comprometem o orçamento mensal ou o uso frequente do crédito como complemento de renda.

Dados da Serasa mostram que 73% das dívidas estão ligadas ao cartão de crédito, e 37% dos devedores devem mais de R$ 10 mil nessa modalidade. Para o especialista, o uso do limite como extensão do salário é um dos principais fatores de risco.

Para evitar recaídas, ele lista três hábitos considerados essenciais: falar sobre dinheiro em família, identificar gastos “invisíveis” — como assinaturas esquecidas — e valorizar pequenas conquistas financeiras como forma de manter disciplina.

O programa também estabelece regras específicas, como limite de até R$ 15 mil por CPF e instituição, exigência de que as dívidas tenham sido contratadas antes de 31 de janeiro de 2026 e possibilidade de uso de parte do FGTS para abatimento do saldo. Após o pagamento da primeira parcela ou quitação à vista, o nome do consumidor deve ser retirado dos cadastros de inadimplência em até cinco dias úteis.