Tarifa de 25% dos EUA sobre produtos brasileiros pode afetar empregos, renda e indústria, diz especialistas

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Emprego e renda devem sentir primeiro os efeitos da sobretaxa dos EUA (Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

Sobretaxa entra em vigor em 22 de julho e deve atingir principalmente polos industriais do Sul e Sudeste; governo promete medidas de apoio aos setores mais impactados

A nova tarifa de 25% aplicada pelos Estados Unidos sobre parte das exportações brasileiras começa a valer em 22 de julho e deve provocar reflexos na economia nacional, sobretudo no mercado de trabalho. Especialistas avaliam que os primeiros impactos serão sentidos por trabalhadores de setores industriais voltados às exportações, com risco de redução de contratações, demissões e desaceleração dos investimentos.

Embora a maior parte da população não perceba efeitos imediatos nos preços, economistas afirmam que as consequências tendem a aparecer de forma indireta. Empresas que exportam para o mercado norte-americano podem enfrentar queda nas receitas, o que deve pressionar a produção e afetar a geração de empregos em regiões fortemente dependentes da atividade industrial.

Durante entrevista coletiva, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Marcio Elias Rosa, informou que o governo prepara um pacote de medidas para reduzir os impactos da sobretaxa. Entre os setores considerados mais vulneráveis estão madeira, máquinas e equipamentos, produtos elétricos, móveis, cerâmica, calçados e açúcar.

Segundo o ministro, uma das principais estratégias será ampliar a presença dos produtos brasileiros em outros mercados internacionais, diminuindo a dependência das vendas aos Estados Unidos.

Mercado de trabalho deve sentir os primeiros efeitos

Para o economista e professor do Ibmec Brasília Renan Silva, o impacto tende a ser concentrado em cidades cuja economia depende das indústrias exportadoras.

De acordo com ele, empresas afetadas pela redução das exportações podem adiar investimentos, congelar novas contratações e limitar reajustes salariais. Em alguns segmentos, também existe a possibilidade de reestruturações e cortes de pessoal.

O especialista destaca que entidades representativas da indústria, como as dos setores calçadista e têxtil, já demonstraram preocupação com a perda de competitividade provocada pela nova tarifa, considerada suficiente para comprometer margens de lucro.

Alguns produtos podem ficar temporariamente mais baratos

No curto prazo, parte dos consumidores pode até encontrar determinados produtos com preços menores no mercado interno.

A avaliação é que empresas que deixarem de exportar para os Estados Unidos poderão redirecionar parte da produção ao mercado brasileiro, aumentando a oferta de itens como roupas e calçados e reduzindo temporariamente seus preços.

Entretanto, esse movimento pode não se manter por muito tempo. Caso a diminuição das exportações reduza significativamente a entrada de dólares no país, o real poderá perder valor frente à moeda norte-americana. Nesse cenário, produtos importados e matérias-primas utilizadas pela indústria brasileira tendem a ficar mais caros, pressionando a inflação no médio e longo prazo.

Sul e Sudeste concentram maior risco

Os efeitos da sobretaxa devem ser mais intensos nos estados que concentram polos industriais exportadores.

Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo aparecem entre as unidades da Federação mais expostas, principalmente nos segmentos de calçados, têxtil, madeira, metalurgia, máquinas, equipamentos e autopeças.

O professor de Economia do Ibmec-RJ Gilberto Braga avalia que, caso as empresas não consigam abrir novos mercados para compensar a perda das exportações aos Estados Unidos, a tendência será reduzir a produção e, consequentemente, o quadro de funcionários.

Segundo ele, a diminuição da atividade industrial também pode gerar impactos indiretos sobre renda, investimentos e consumo.

Governo aposta em negociação e novos mercados

O governo federal informou que mantém negociações com autoridades norte-americanas desde o início da investigação comercial aberta pelos Estados Unidos e afirma já ter realizado mais de 30 reuniões bilaterais desde julho de 2025.

Além das tratativas diplomáticas, o Executivo anunciou que pretende reforçar o Plano Brasil Soberano, acionar os mecanismos previstos na Lei da Reciprocidade e retomar as discussões sobre o caso na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Na avaliação dos especialistas, outra alternativa para reduzir os prejuízos será ampliar as exportações para mercados como União Europeia, China e Índia, considerados potenciais compradores da produção brasileira.

Mais de 2 mil produtos ficaram fora da sobretaxa

Apesar da medida atingir diversos setores industriais, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) divulgou uma lista com mais de 2 mil produtos brasileiros isentos da tarifa adicional.

Entre os itens excluídos estão carne bovina, café, laranja, suco de laranja, mel orgânico, hidróxido de alumínio, sucata de ferro e aço, peixes e frutos do mar, couros, parte dos produtos de madeira, medicamentos e insumos farmacêuticos.

Segundo o governo norte-americano, esses produtos foram poupados por serem considerados estratégicos para evitar problemas de abastecimento e reduzir impactos sobre a economia dos Estados Unidos.

Mesmo com essas exceções, especialistas afirmam que a maior preocupação permanece concentrada na indústria de transformação, considerada o segmento mais vulnerável aos efeitos da nova política tarifária.