Tarifa de 25% dos EUA sobre produtos brasileiros entra em vigor a partir de hoje

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Máquinas, calçados, vestuário, papel e etanol estão entre os segmentos mais expostos à medida (Foto: Diego Baravanelli/Minfra)

Medida atinge cerca de US$ 7,2 bilhões em vendas do Brasil aos Estados Unidos; governo aposta em negociações e descarta retaliação imediata

Às 0h01 desta quarta-feira (22), passou a valer a tarifa adicional de 25% aplicada pelos Estados Unidos sobre parte das exportações brasileiras, ampliando a pressão sobre setores estratégicos da indústria nacional. A medida, oficializada pelo governo norte-americano na última semana, eleva o custo de entrada de diversos produtos brasileiros no mercado dos EUA e acende um alerta para possíveis reflexos na produção, nos investimentos e no comércio exterior.

A nova cobrança foi confirmada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) após a conclusão de uma investigação conduzida com base na Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana. O processo teve início depois do anúncio do primeiro pacote tarifário de 50% feito pelo presidente Donald Trump em julho de 2025.

Segundo o governo dos Estados Unidos, a decisão foi motivada por supostas práticas brasileiras consideradas prejudiciais à concorrência, envolvendo áreas como comércio digital, concessão de tarifas preferenciais, combate à corrupção, análise de patentes, pirataria, política para o etanol e ações relacionadas ao desmatamento ilegal. Para Washington, esses fatores criariam insegurança jurídica e desvantagens para empresas americanas.

Mesmo após audiências públicas realizadas nos EUA, nas quais representantes da sociedade civil e do setor produtivo se posicionaram contra a sobretaxa, o USTR manteve a decisão. Durante as negociações, integrantes do governo norte-americano afirmaram que o Brasil demonstrou pouco avanço nas tratativas, enquanto negociadores brasileiros classificaram as exigências como excessivas e desfavoráveis aos interesses da indústria e do agronegócio nacional.

Produtos ficam mais caros nos EUA

Na prática, a tarifa funciona como um custo adicional cobrado na entrada de determinados produtos brasileiros em território americano. A expectativa é de que parte desse aumento seja repassada aos consumidores dos Estados Unidos, enquanto outra parcela seja absorvida pelos exportadores brasileiros, reduzindo margens de lucro e competitividade.

Para o professor de Ciências Contábeis da Estácio, Alisson Batista, a consequência mais imediata será a perda de competitividade dos produtos brasileiros no mercado americano.

Segundo ele, a redução das exportações pode desencadear efeitos como desaceleração da produção, adiamento de investimentos e impactos sobre o emprego em segmentos mais dependentes das vendas aos Estados Unidos. Apesar disso, o especialista avalia que o risco de uma inflação generalizada no Brasil é reduzido, já que parte da produção destinada ao exterior poderá permanecer no mercado interno, aumentando a oferta de produtos.

Entre os setores mais expostos estão as indústrias de máquinas e equipamentos, calçados, vestuário, papel, madeira, açúcar e etanol.

Nem todos os produtos serão taxados

Apesar da nova cobrança, alguns itens considerados estratégicos para a economia americana ficaram de fora da sobretaxa. Permanecem isentos produtos como café, carne bovina, aeronaves e componentes da indústria aeronáutica, além de determinados produtos minerais.

Dados da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) indicam que cerca de US$ 7,2 bilhões em exportações brasileiras — aproximadamente 18,9% dos US$ 38 bilhões vendidos anualmente aos Estados Unidos — serão atingidos diretamente pela medida.

Com isso, o Brasil passa a figurar entre os países mais afetados pelas tarifas impostas por Washington, ficando atrás apenas da China.

Governo aposta em negociação e evita falar em retaliação

Enquanto as novas tarifas entram em vigor, o governo federal mantém a estratégia de buscar uma solução diplomática. O vice-presidente Geraldo Alckmin iniciou uma série de reuniões com representantes dos principais segmentos afetados para discutir alternativas de apoio e a abertura de novos mercados para os produtos brasileiros.

Participam das conversas entidades representativas da indústria automobilística, de autopeças, máquinas e equipamentos, setor têxtil, calçadista, plástico, eletroeletrônicos e pneumáticos.

O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso, defendeu que o Brasil priorize o diálogo com Washington e evite, neste momento, medidas de reciprocidade.

Desde o anúncio das novas tarifas, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem classificado a decisão americana como injustificada e um marco negativo nas relações bilaterais. Embora tenha reafirmado que o país dispõe dos instrumentos previstos na Lei da Reciprocidade, integrantes da equipe econômica passaram a adotar um discurso de cautela.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo pretende agir de forma técnica e prudente, evitando ações que possam ampliar a tensão comercial ou provocar aumento de preços ao consumidor brasileiro. A orientação também busca impedir que os Estados Unidos endureçam ainda mais as medidas contra o Brasil.

Além de insistir nas negociações, o Executivo pretende ampliar a articulação com o setor privado para acelerar a abertura de novos mercados na União Europeia, Ásia, Mercosul e China, reduzindo a dependência das exportações destinadas aos Estados Unidos e minimizando os impactos do novo tarifaço.