El Niño deve ganhar força e pode pressionar alimentos, energia e inflação no Brasil

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(Foto: NOAA Satellites)

Fenômeno climático tem 100% de probabilidade de permanecer ativo até o início de 2027, segundo o Inmet; Sul deve ter mais chuva e Centro-Norte, tempo mais seco

O clima pode deixar de ser apenas uma preocupação para produtores rurais e passar a pesar cada vez mais no orçamento das famílias brasileiras nos próximos meses. Com o El Niño já configurado e previsão de permanência pelo menos até o início de 2027, o país entra em um período de contrastes, marcado por temperaturas acima da média e mudanças no regime de chuvas.

O fenômeno foi oficialmente caracterizado em junho de 2026 e, conforme o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), há 100% de probabilidade de que continue ativo até o começo do próximo ano.

A previsão climática para o trimestre de agosto a outubro indica chuva acima da média na Região Sul, enquanto áreas do Centro-Norte do país devem registrar precipitações abaixo do esperado. As temperaturas, por sua vez, tendem a permanecer acima da média histórica em grande parte do território nacional.

Os efeitos exatos ainda dependem da evolução do fenômeno, mas o histórico mostra que alterações no padrão de chuva e temperatura podem provocar impactos em diferentes setores da economia, principalmente na agricultura, nos recursos hídricos e na geração de energia.

Do campo ao supermercado

A mudança no clima pode atingir o consumidor por diferentes caminhos. Uma quebra de safra, por exemplo, reduz a quantidade de produtos disponíveis, enquanto estradas danificadas por temporais ou rios com menor nível de navegação podem aumentar o custo do transporte.

Para a economista e professora da PUC-SP Cristina Helena Pinto, um evento climático extremo pode atingir várias etapas da cadeia produtiva ao mesmo tempo, da lavoura à comercialização.

Uma enchente pode destruir plantações e interromper estradas, elevando os custos logísticos. Já uma estiagem pode reduzir a produtividade agrícola e aumentar despesas relacionadas à energia.

O momento em que esse impacto chega ao supermercado, porém, varia conforme o tipo de alimento. Produtos que podem ser armazenados tendem a apresentar uma reação mais lenta. Já hortaliças, frutas e outras culturas com menor capacidade de estocagem podem ter alterações de preço rapidamente diante de uma redução na oferta.

Quais alimentos podem ficar mais caros?

O impacto do El Niño não será uniforme entre as regiões brasileiras. Mesmo assim, alguns produtos aparecem entre os mais suscetíveis às mudanças climáticas.

Frutas e hortaliças estão entre os itens com resposta mais rápida. Chuvas excessivas podem prejudicar plantações e provocar perdas, enquanto períodos de seca intensa também reduzem a produção.

Arroz e feijão também exigem atenção, devido à concentração regional das lavouras. Inundações no Sul ou períodos prolongados de estiagem em outras áreas produtoras podem comprometer a oferta.

No caso das carnes, o efeito tende a ocorrer de maneira mais gradual. Temperaturas elevadas podem provocar estresse térmico nos animais e reduzir a produtividade das pastagens. Ao mesmo tempo, uma eventual alta nos preços do milho e da soja, utilizados na alimentação animal, aumenta os custos de produção.

Já produtos como café e açúcar podem sentir os efeitos principalmente no médio e longo prazo. Como são culturas perenes ou semiperenes, alterações nas condições de chuva e temperatura podem afetar a produção das próximas safras.

Energia, frete e combustível também podem subir

O impacto econômico do fenômeno não termina no preço dos alimentos.

Para o economista e professor do Ibmec Brasília Renan Silva, eventos climáticos extremos podem provocar aumento de despesas com energia elétrica, transporte e combustíveis.

Secas severas podem afetar a disponibilidade de água para geração hidrelétrica. Ao mesmo tempo, enchentes e outros eventos extremos podem danificar rodovias e prejudicar a navegação dos rios, encarecendo o transporte de mercadorias.

A produção de etanol também pode ser afetada caso ocorram perdas nas lavouras de cana-de-açúcar, reduzindo a oferta do combustível e pressionando os preços nos postos.

Impacto pode chegar ao PIB e aos juros

As consequências também podem aparecer nos principais indicadores da economia.

Segundo Renan Silva, uma redução de 5% a 10% na produção do agronegócio poderia retirar entre 0,3 e 0,8 ponto percentual do crescimento do PIB brasileiro, considerando os efeitos diretos e indiretos sobre outros setores.

A agricultura movimenta uma extensa cadeia econômica, que inclui indústria de processamento, transporte, comércio e serviços. Uma quebra de safra, portanto, pode produzir efeitos além das propriedades rurais.

Outro possível desdobramento é a pressão sobre a inflação. Caso alimentos e energia fiquem mais caros, o Banco Central pode enfrentar maior dificuldade para reduzir os juros.

A consequência seria uma possível manutenção da taxa Selic em níveis elevados por mais tempo, encarecendo o crédito e dificultando uma recuperação mais forte da atividade econômica.

Famílias de menor renda são as mais vulneráveis

Os efeitos da crise climática também são desiguais entre os consumidores.

Famílias com renda mais baixa costumam destinar uma parcela maior do orçamento para alimentação, produtos básicos e tarifas essenciais. Por isso, aumentos de preços provocados por eventos climáticos podem comprometer proporcionalmente mais a renda dessas pessoas.

Cristina Helena Pinto avalia que uma tragédia climática pode provocar simultaneamente perda de renda e aumento do custo de vida.

Quando uma atividade econômica é interrompida por um evento extremo, a família pode perder renda justamente no momento em que alimentos, transporte e outros itens essenciais ficam mais caros.

El Niño pode ficar muito forte

Os modelos climáticos indicam possibilidade de que o atual episódio alcance intensidade muito forte entre a primavera e o verão, período que vai aproximadamente do fim de setembro até dezembro.

Nesse cenário, as temperaturas da superfície do Oceano Pacífico na região de monitoramento poderiam apresentar anomalias superiores a 2°C.

O El Niño é um fenômeno natural associado ao aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial. O aumento da temperatura do oceano modifica a circulação atmosférica e altera os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta.

Fenômeno natural em um planeta mais quente

Embora o El Niño seja um fenômeno natural conhecido há milhares de anos, especialistas afirmam que as mudanças climáticas podem potencializar seus efeitos.

Segundo Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagens do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o fenômeno funciona como um sistema de interação entre oceano e atmosfera: o aquecimento das águas altera a circulação atmosférica, enquanto as mudanças na atmosfera também influenciam o oceano.

O Brasil já enfrentou consequências severas associadas ao fenômeno. Entre abril e maio de 2024, o Rio Grande do Sul sofreu uma das maiores tragédias climáticas de sua história recente, com enchentes que atingiram pelo menos 470 dos 497 municípios do estado.

Mais de 180 pessoas morreram e cerca de 600 mil ficaram desabrigadas ou desalojadas.

Especialistas, no entanto, ressaltam que eventos extremos não podem ser atribuídos exclusivamente ao El Niño. Mudanças no uso do solo também interferem no regime climático.

A substituição de áreas florestais por pastagens, por exemplo, altera a quantidade de umidade devolvida à atmosfera e pode contribuir para mudanças nos padrões de chuva.

Alerta para os próximos meses

Com a possibilidade de um El Niño mais intenso durante a primavera e o verão, o cenário exige atenção principalmente dos setores dependentes diretamente das condições climáticas.

Agricultura, geração de energia, transporte e abastecimento estão entre as áreas mais expostas. Para o consumidor, os reflexos podem aparecer de forma gradual — primeiro em produtos mais sensíveis às perdas de produção e, posteriormente, em custos de transporte, energia e outros serviços.

O tamanho desse impacto, porém, dependerá da intensidade e da duração do fenômeno, além da ocorrência ou não de eventos extremos em regiões produtoras.