Crédito para pagar comida cresce no Brasil e acende alerta sobre endividamento

12
Uso do cartão para despesas do dia a dia cresce enquanto 83,7 milhões de brasileiros estão negativados

Parcelamento de pedidos, supermercado e outras despesas básicas ganha espaço enquanto inadimplência e juros atingem níveis elevados

O jantar, a compra do supermercado e até despesas que antes eram pagas integralmente já começam a caber no orçamento apenas quando divididas em parcelas. O avanço dessa prática mostra que o crédito deixou de ser usado apenas para adquirir bens de maior valor e passou a sustentar parte do consumo cotidiano dos brasileiros.

Desde dezembro de 2025, o iFood permite que pedidos de restaurantes sejam parcelados no cartão, mediante cobrança de juros. As taxas variam de 3,53% a 8,36% de custo efetivo total, conforme a quantidade de parcelas escolhida. A procura pela modalidade superou as expectativas: mais de 1,3 milhão de pedidos foram parcelados apenas entre dezembro e janeiro, mais que o dobro do volume registrado anteriormente.

O fenômeno do delivery, porém, é apenas um retrato de uma mudança mais ampla no comportamento do consumidor. Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), 42,7% das compras feitas com cartão de crédito no terceiro trimestre do ano passado foram parceladas. A maior concentração ocorreu nas operações divididas em até seis vezes.

Na prática, o parcelamento deixou de ser uma alternativa reservada para compras de maior valor e passou a fazer parte da rotina de despesas básicas. Alimentação, transporte e supermercado estão entre os gastos que passaram a depender cada vez mais do crédito para serem encaixados no orçamento.

O cenário ocorre em meio ao aumento das dificuldades financeiras das famílias. Em junho de 2026, o Brasil chegou a 83,7 milhões de pessoas negativadas, o equivalente a 50,9% da população adulta. Foi a 18ª alta consecutiva da inadimplência, indicando uma deterioração prolongada da capacidade de pagamento dos consumidores.

Os dados do sistema financeiro também apontam para uma piora. Em maio, os atrasos superiores a 90 dias chegaram a 4,7% das operações de crédito, o maior percentual desde o início da série histórica do Banco Central, em 2011. No mesmo período, a taxa do crédito rotativo do cartão chegou a 439,9% ao ano.

Contas públicas também entram na equação

A pressão sobre o orçamento das famílias ocorre paralelamente ao desequilíbrio das contas do governo. Em maio de 2026, o governo central, que reúne Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central, registrou déficit primário de R$ 53,3 bilhões. Foi o pior resultado para o mês desde 2024, apesar de a arrecadação ter atingido o maior valor já registrado para maio.

O resultado significa que o crescimento das despesas continua superando o avanço das receitas. Quando isso acontece de forma persistente, aumenta a pressão sobre as contas públicas e sobre as condições financeiras da economia.

Para o consumidor, os efeitos aparecem principalmente por meio da inflação e dos juros elevados. O crédito fica mais caro, as parcelas pesam mais no orçamento e famílias com menor margem financeira ficam mais vulneráveis ao endividamento.

A situação pode ser percebida em despesas corriqueiras: na compra do supermercado que precisa ser dividida em várias vezes, na refeição paga no cartão ou na fatura que cresce acima da capacidade de pagamento.

O avanço do parcelamento de itens básicos, portanto, não é apenas uma mudança na forma de consumir. É também um sinal de que uma parcela crescente da população está recorrendo ao crédito para manter despesas que deveriam caber no orçamento mensal.

Enquanto receitas públicas recordes não forem acompanhadas por maior controle das despesas, o desequilíbrio continuará tendo reflexos na economia. E, para as famílias que já vivem no limite, o preço desse cenário pode aparecer justamente onde há menos espaço para cortes: nas despesas essenciais.