Crise no STF entra na disputa presidencial e muda estratégia de Lula e Flávio Bolsonaro

21
(Foto: Reprodução/Agência Senado)

Petista é aconselhado a se distanciar de Alexandre de Moraes, enquanto campanha do senador pretende explorar o confronto com o ministro na eleição de 2026

A crise interna no Supremo Tribunal Federal (STF) deixou de ser apenas uma disputa entre ministros e passou a ocupar espaço central na corrida presidencial de 2026. O embate envolvendo Alexandre de Moraes, André Mendonça e Flávio Dino, somado à disputa pelo comando da Polícia Federal (PF) e às investigações relacionadas ao caso Master e ao filme “Dark Horse”, já provoca mudanças nas estratégias de campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).

O cenário se agravou nesta quarta-feira (9), após decisões conflitantes sobre o comando da PF. Primeiro, Flávio Dino determinou a reintegração de Andrei Rodrigues à direção-geral da corporação, depois de André Mendonça ter ordenado seu afastamento. Horas depois, o presidente do STF, Edson Fachin, suspendeu as duas decisões e manteve Rodrigues no cargo, além de marcar para 15 de setembro uma sessão extraordinária do plenário para discutir os desdobramentos da crise.

A intervenção de Fachin ocorreu diante do risco de decisões conflitantes dentro da própria Corte. O ministro afirmou que o embate entre decisões individuais havia criado um quadro de sobreposição processual e risco de “tumulto processual”. A medida também retirou de Moraes a condução de uma investigação sobre fake news e centralizou na Presidência do STF procedimentos envolvendo ministros da Corte.

Flávio Bolsonaro pretende manter STF no centro da campanha

No entorno de Flávio Bolsonaro, a avaliação é de que a permanência da crise no noticiário pode favorecer eleitoralmente o candidato do PL. A estratégia é manter Alexandre de Moraes como um dos principais alvos da comunicação e associar politicamente o ministro ao presidente Lula.

A orientação, porém, é evitar ataques ao STF como instituição. O discurso deve se concentrar em Moraes e em decisões específicas tomadas por ministros da Corte.

Essa estratégia já apareceu no ato de 7 de Setembro, em São Paulo. Flávio afirmou que quem vota em Lula estaria, na prática, votando em Moraes e prometeu trabalhar para recuperar a credibilidade do Supremo. O discurso reforçou a tentativa de transformar a crise institucional em um dos principais temas da campanha.

Nos bastidores, a lógica eleitoral é manter a associação entre Lula e Moraes no debate público, transformando a crise do STF em uma disputa política entre os dois principais candidatos.

O problema para Flávio é que a mesma crise pode atingir seu grupo político. O senador aparece relacionado às investigações sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, produção sobre Jair Bolsonaro. O caso envolve o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que teria participado do financiamento da obra.

Nesta quarta-feira (9), Mendonça homologou a delação premiada do empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, apontado como responsável por transferências financeiras ligadas a Vorcaro. Parte dos recursos teria sido destinada ao fundo utilizado para financiar o filme. As informações prestadas pelo colaborador poderão ser utilizadas nas investigações.

A movimentação aumenta a preocupação entre aliados de Flávio de que novas medidas investigativas possam atingir pessoas próximas à produção de “Dark Horse” e recolocar o senador no centro do caso.

A volta de Andrei Rodrigues ao comando da PF também elevou essa preocupação. Dino havia determinado a reintegração do delegado alegando, entre outros pontos, que o afastamento determinado por Mendonça apresentava problemas processuais e poderia prejudicar investigações em andamento.

A disputa, no entanto, ganhou outro capítulo com a decisão de Fachin. O presidente do STF suspendeu tanto o afastamento determinado por Mendonça quanto a posterior reintegração decidida por Dino, mantendo Rodrigues no cargo enquanto o tribunal organiza a análise do caso.

Lula enfrenta dilema entre governo e campanha

Para Lula, a crise produz um problema diferente. Como presidente da República, ele precisa preservar a relação institucional com o Supremo, mas, ao mesmo tempo, sua campanha avalia o impacto eleitoral de uma associação direta com Moraes.

Parte dos aliados defende que Lula adote uma postura mais distante do ministro e deixe claro que as decisões da Corte não representam necessariamente posições do governo. O espaço para críticas diretas, porém, é considerado limitado justamente pela posição institucional ocupada pelo presidente.

O governo já foi obrigado a atuar formalmente na disputa depois que Mendonça determinou o afastamento da cúpula da PF. A Advocacia-Geral da União (AGU) recorreu ao Supremo e sustentou que a nomeação e a exoneração do diretor-geral da Polícia Federal são prerrogativas do presidente da República. A AGU classificou a decisão de Fachin como uma medida que restaura a ordem pública e administrativa.

Lula também elevou o tom nesta quarta-feira ao defender a quebra completa do sigilo das investigações relacionadas ao caso Master. O presidente não citou Moraes diretamente, mas cobrou transparência sobre um episódio que passou a ter impacto direto sobre o ambiente eleitoral.

Dentro do PT, a avaliação é de que a crise institucional pode ser usada para defender mudanças na estrutura do Judiciário e reforçar o discurso de transparência. O presidente do partido, Edinho Silva, classificou o momento como uma crise institucional e afirmou confiar na atuação de Fachin para conduzir o Supremo.

Outros candidatos tentam escapar da polarização

A crise também interfere nas estratégias dos demais candidatos à Presidência.

Ronaldo Caiado (PSD) avalia que o confronto entre os grupos de Lula e Flávio pode aumentar a polarização e retirar espaço de outros temas da campanha. O governador de Goiás pretende intensificar a ofensiva eleitoral a partir da próxima segunda-feira (14), mas com foco em corrupção.

Para Caiado, a disputa em torno do STF não pode substituir o debate sobre os problemas que, na avaliação de sua campanha, deveriam pautar a eleição.

Romeu Zema (Novo), por outro lado, pretende manter as críticas ao Supremo. A equipe do ex-governador de Minas Gerais considera que a crise reforça uma estratégia que já vinha sendo utilizada desde o ano passado.

Zema tem explorado o tema nas redes sociais por meio de vídeos produzidos com inteligência artificial na série “Intocáveis”, que aborda críticas ao STF e o caso Master.

Renan Santos (Missão) também pretende aproveitar o desgaste das instituições para reforçar o discurso antissistema. O candidato já defendeu que o próximo presidente enfrente o STF e falou em impeachment de ministros.

Augusto Cury (Avante) adotou uma posição diferente e decidiu não entrar na disputa. A campanha do escritor considera o episódio excessivamente polarizado e afirma que pretende manter distância do confronto entre os grupos de Lula e Flávio.

Crise chega à reta decisiva da eleição

A disputa ocorre em um momento de forte equilíbrio entre Lula e Flávio Bolsonaro. Pesquisa Quaest divulgada em 7 de setembro mostrou os dois empatados numericamente em um eventual segundo turno, com 41% das intenções de voto para cada um. No primeiro turno, Lula aparecia com 36%, contra 29% de Flávio.

Nesse cenário, o conflito no STF ganha importância estratégica porque pode influenciar tanto a mobilização do eleitorado mais identificado com a direita quanto a tentativa de Lula de ampliar sua vantagem entre eleitores menos alinhados à polarização.

Para Flávio, manter Moraes e o Supremo no centro da campanha pode ajudar a consolidar o discurso de oposição ao governo. Ao mesmo tempo, a estratégia carrega o risco de ampliar a exposição do próprio candidato às investigações relacionadas a Vorcaro e ao filme “Dark Horse”.

Para Lula, o desafio é evitar que a crise seja transformada em um plebiscito sobre Moraes sem romper a relação institucional com o STF.

Com a sessão extraordinária marcada para 15 de setembro, a tendência é que a disputa dentro do Supremo continue a produzir efeitos diretos sobre a campanha presidencial nas próximas semanas.