China acompanha falas de Flávio Bolsonaro de olho na relação com o Brasil

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Pequim acompanha declarações do candidato e avalia possíveis impactos sobre comércio, investimentos e relações diplomáticas (Foto: Reprodução/Viver Goias)

Governo chinês avalia possíveis mudanças na política externa brasileira caso o candidato do PL chegue à Presidência

O governo da China acompanha com atenção as declarações e propostas de Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência da República, diante da possibilidade de uma mudança na política externa brasileira a partir de 2027. Segundo fontes ouvidas pela CNN Brasil em Pequim, o país avalia como o senador poderá conduzir a relação com os Estados Unidos e com a China caso seja eleito.

De acordo com esses relatos, autoridades chinesas demonstram preocupação com uma eventual aproximação mais intensa de um governo brasileiro com Washington e com posições consideradas desfavoráveis a Pequim. Ao mesmo tempo, interlocutores chineses avaliam Flávio como mais pragmático e moderado em comparação com o perfil adotado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro durante parte de seu governo.

A avaliação ocorre em um momento em que a China ocupa posição central na economia brasileira. Em 2024, o país asiático respondeu por 28% das exportações brasileiras e 24% das importações, mantendo-se como o principal parceiro comercial do Brasil.

No agronegócio, a dependência comercial também é significativa. Em 2025, a China comprou US$ 55,3 bilhões em produtos agropecuários brasileiros, o equivalente a 32,7% das exportações do setor. Entre os principais produtos estão soja, carnes, açúcar e outros produtos agrícolas.

Relação teve período de tensão no governo Bolsonaro

A cautela chinesa também leva em consideração o histórico recente da relação diplomática entre os dois países. Durante os primeiros anos do governo Jair Bolsonaro, integrantes da administração brasileira fizeram críticas públicas à China, especialmente durante a pandemia de Covid-19.

A postura provocou reações do governo chinês e do então embaixador em Brasília, Yang Wanming. O tom das relações, segundo a reportagem da CNN, começou a diminuir depois da saída de Ernesto Araújo do Ministério das Relações Exteriores e de sua substituição por Carlos França.

Agora, a orientação atribuída a Pequim é evitar envolvimento público na disputa eleitoral brasileira. Segundo a CNN, o atual embaixador chinês no Brasil, Zhu Qingqiao, deve manter uma atuação discreta e evitar manifestações que possam ser interpretadas como apoio a qualquer candidato.

Minerais críticos estão entre os pontos de atenção

Um dos temas acompanhados pela China são os minerais críticos, incluindo terras raras, utilizados em setores como veículos elétricos, baterias, semicondutores, equipamentos de defesa e inteligência artificial.

Em março, durante uma conferência nos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro afirmou que o Brasil poderia ser uma solução para reduzir a dependência americana da China em relação a minerais críticos e terras raras.

O programa de governo do candidato também prevê medidas para acelerar o licenciamento de projetos de minerais críticos, ampliar garantias para financiamento e estimular o processamento desses recursos no país. A lista inclui lítio, nióbio, grafite, cobre, níquel, urânio e terras raras.

A declaração sobre minerais críticos gerou críticas de integrantes da base do governo Lula. O líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), classificou a fala como uma ameaça à soberania brasileira. Essa é uma avaliação política atribuída ao parlamentar, e não uma posição oficial do governo chinês.

Brics também entra no radar

Outro ponto acompanhado por Pequim é o futuro do Brasil no Brics. O grupo tem importância estratégica para a China, que assumirá a presidência do bloco em 2027.

O programa de governo de Flávio Bolsonaro, divulgado em agosto, não faz menção ao Brics nem ao Mercosul. O documento, por outro lado, defende a retomada do processo de adesão do Brasil à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A ausência de referência ao Brics não significa, por si só, uma proposta de retirada do grupo. O programa, porém, indica uma prioridade para a relação com a OCDE, segundo a análise publicada pela CNN.

Comércio tende a ser menos afetado

Segundo as fontes chinesas ouvidas pela CNN, uma eventual mudança na orientação política externa brasileira não seria vista, necessariamente, como uma ameaça imediata ao comércio entre os dois países.

A forte complementaridade econômica é um dos fatores considerados por Pequim. A China depende do Brasil para o fornecimento de produtos como soja, minério de ferro, petróleo e carnes, enquanto empresas brasileiras têm no mercado chinês um dos principais destinos para suas exportações.

Em 2025, a China continuou sendo o principal mercado para o agronegócio brasileiro, com US$ 55,3 bilhões em compras.

O cenário é diferente quando se trata de novos investimentos. Segundo os interlocutores citados pela CNN, eventuais tensões diplomáticas podem aumentar a percepção de risco para empresas chinesas que planejam projetos de longo prazo no Brasil.

Empresas chinesas ampliam presença no Brasil

Nos últimos anos, empresas chinesas aumentaram a presença no mercado brasileiro em áreas como indústria automotiva, tecnologia, infraestrutura e energia.

Entre os projetos citados estão a fábrica da BYD em Camaçari, na Bahia, a expansão de montadoras chinesas, investimentos da CRRC no setor ferroviário e projetos de infraestrutura tecnológica.

Também estão em andamento iniciativas relacionadas a data centers e serviços de internet por satélite. Empresas chinesas de tecnologia, como DiDi e Meituan, ampliaram a disputa no mercado brasileiro de aplicativos.

Para Pequim, portanto, a relação com o Brasil envolve não apenas a compra e venda de commodities, mas também investimentos e projetos de longo prazo em setores considerados estratégicos.

Relação entre Brasil e China é estratégica

Dados oficiais mostram que a relação econômica já alcançou um nível de forte interdependência. Em 2024, a corrente de comércio entre os dois países chegou a quase US$ 160 bilhões, com US$ 94,4 bilhões em exportações brasileiras para a China e US$ 63,6 bilhões em importações. O Brasil terminou o ano com superávit de US$ 30,7 bilhões na relação comercial.

No agronegócio, a China também é o principal destino das exportações brasileiras. O Ministério da Agricultura afirma que o país asiático respondeu por 32,7% das vendas externas do setor em 2025.

É nesse contexto que Pequim acompanha as posições de Flávio Bolsonaro. A preocupação relatada por fontes chinesas está concentrada principalmente na possibilidade de mudanças na orientação diplomática do Brasil em áreas estratégicas, como relações com os Estados Unidos, minerais críticos, inteligência artificial e participação no Brics, enquanto o comércio bilateral é considerado menos suscetível a mudanças imediatas.