Encontro na Band teve discussões sobre segurança pública, economia, saúde e suspeitas de corrupção; eleição que definirá o próximo presidente está marcada para 25 de outubro.
A uma semana da decisão sobre quem comandará o Brasil pelos próximos quatro anos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) protagonizaram neste domingo (18) um debate marcado por ataques pessoais, acusações e momentos de tensão. No primeiro confronto direto entre os candidatos no segundo turno, propostas para áreas como segurança pública, economia e saúde dividiram espaço com discussões sobre familiares, investigações e episódios dos governos anteriores.
Promovido pela Band em parceria com o jornal O Estado de S. Paulo, o encontro começou por volta das 20h15, com cerca de 15 minutos de atraso. A votação do segundo turno será realizada no próximo domingo (25).
O clima ficou mais tenso durante os momentos de confronto direto. A plateia reagiu a algumas declarações e precisou ser orientada pelos mediadores a manter o silêncio para que os candidatos pudessem concluir as falas.
Segurança pública abre discussão
A primeira rodada de perguntas abordou o avanço do crime organizado, o domínio territorial de facções e milícias e a possibilidade de redução da maioridade penal.
Flávio defendeu uma política de endurecimento contra organizações criminosas. O senador afirmou que pretende classificar grupos como o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho e as milícias como organizações narcoterroristas, além de recuperar áreas dominadas por criminosos e ampliar as punições.
Lula, por sua vez, defendeu a participação conjunta de União, estados e municípios no enfrentamento ao crime organizado. O presidente citou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública e afirmou que pretende ampliar a atuação federal no setor, inclusive com a criação de um Ministério da Segurança Pública caso a proposta avance.
Os dois também trocaram críticas sobre as políticas de segurança adotadas por seus grupos políticos e divergiram sobre o tratamento a pessoas presas e o endurecimento das penas.
Acusações sobre familiares e investigações
O primeiro confronto direto entre os candidatos começou com uma pergunta de Lula sobre o voto de Flávio, em 2009, quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, contrário à ampliação da licença-maternidade de servidoras públicas. O senador negou ter algo contra as mulheres, mas não explicou especificamente a posição adotada na votação.
Na sequência, Flávio questionou Lula sobre investigações envolvendo Roberta Luchsinger e Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente. Os dois são investigados pela Polícia Federal por suspeita de tráfico de influência e negam irregularidades.
Lula afirmou que as investigações devem seguir seu curso e disse que não interfere no trabalho da Polícia Federal. O presidente também acusou a família Bolsonaro de ter tentado proteger aliados de apurações durante o governo anterior.
Flávio rebateu as declarações e criticou a atuação do governo federal no caso dos descontos indevidos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Lula afirmou que as fraudes foram descobertas e combatidas durante sua gestão.
O senador também questionou a presença de Lulinha na Espanha e cobrou explicações sobre as suspeitas envolvendo o filho do presidente.
Financiamento de filme gera novo bate-boca
Outro dos momentos mais acalorados ocorreu quando Lula cobrou explicações de Flávio sobre uma negociação de R$ 134 milhões atribuída ao senador com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, produção sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O presidente questionou o destino dos recursos e afirmou que havia contradições nas explicações apresentadas sobre a operação. O financiamento é alvo de investigação da Polícia Federal.
Flávio negou irregularidades e rebateu com acusações contra Lula, citando supostos repasses ao Instituto Lula. O senador mencionou um áudio que, segundo ele, teria sido gravado por Vorcaro e divulgado em suas redes sociais.
As acusações feitas durante o debate não representam, por si só, comprovação de irregularidades. Os casos citados dependem de apuração pelas autoridades competentes.
Provocações pessoais aumentam a tensão
Em outro momento, Flávio se aproximou de Lula no palco e o convidou a ficar ao seu lado, afirmando que não era uma pessoa violenta. O presidente respondeu dizendo que queria distância de “miliciano”. O senador retrucou com outra provocação, e a troca de falas provocou reações na plateia.
Flávio também retomou as condenações que Lula recebeu no passado por corrupção e lavagem de dinheiro, usando a palavra “corrupto” escrita na palma da mão. O presidente, por sua vez, questionou a compra de um imóvel de alto valor pelo senador e insinuou uma possível relação com recursos ligados ao caso Banco Master.
Lula ainda afirmou que Flávio perderia a imunidade parlamentar caso fosse derrotado na eleição e disse acreditar que investigações envolvendo o adversário poderiam avançar. O senador não deixou de atacar o governo petista e voltou a acusar o presidente de proteger familiares e aliados.
Economia, saúde e jornada de trabalho
A economia também esteve entre os principais temas do encontro. Lula defendeu políticas de estímulo ao consumo, apoio aos pequenos negócios e investimentos em setores como tecnologia, indústria e economia verde. O presidente afirmou que o crescimento econômico e a geração de renda são caminhos para melhorar as condições de vida da população.
Flávio criticou o aumento da dívida pública, os juros e os preços dos alimentos. O senador prometeu controlar gastos, reduzir o endividamento e ampliar medidas de renegociação de dívidas para famílias e empresas.
Na área da saúde, Flávio propôs integrar informações médicas em um prontuário eletrônico único e ampliar o uso da telemedicina, da inteligência artificial e de ferramentas digitais. Ele também defendeu levar ao Sistema Único de Saúde (SUS) o que chamou de “padrão Einstein”.
Lula questionou a proposta e criticou a condução da saúde durante o governo de Jair Bolsonaro, especialmente na pandemia de Covid-19. Flávio reconheceu que a gestão do ex-presidente não teve os melhores resultados na área, mas atribuiu parte das dificuldades à crise sanitária.
A escala de trabalho 6×1 também entrou na discussão. Lula perguntou se o senador pretendia alterar a proposta de encerramento desse modelo. Flávio afirmou que não e disse ter mudado de posição após ouvir trabalhadores durante a campanha.
Os candidatos ainda divergiram sobre a saída temporária de presos, a redução da maioridade penal, a política de armas e a relação do Brasil com os Estados Unidos.
Disputa chega à última semana
Nas considerações finais, Lula defendeu a continuidade de seu governo e citou a recuperação da indústria e o fortalecimento das empresas estatais como prioridades. O presidente agradeceu aos apoiadores e afirmou que o país tem condições de ampliar o crescimento econômico.
Flávio disse que não pretende fazer promessas que não possa cumprir e voltou a defender suas propostas para a segurança pública. O senador afirmou que quer colocar o cidadão no centro das decisões do governo e pediu votos para o segundo turno.
O debate ocorre em meio a uma disputa apertada. Pesquisas divulgadas na semana anterior ao encontro indicavam vantagem numérica de Flávio, mas apontavam empate técnico entre os candidatos dentro da margem de erro.
No primeiro turno, o senador terminou à frente de Lula, com aproximadamente 2,2 milhões de votos a mais, diferença de 1,87 ponto percentual.
Com a votação marcada para 25 de outubro, as campanhas entram na reta final em busca dos eleitores que ainda não decidiram o voto. Os debates e os atos de rua devem concentrar parte dos esforços dos dois candidatos nos últimos dias antes da eleição.





















