Ela cuida do Fórum melhor do que da própria casa

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(Foto: divulgação Ascom TJ-MS)

Aos 74 anos, Enedina Martins Lopes Stahlke esbarra em novembro de 2022 no limite de idade para continuar trabalhando no Poder Judiciário de Mato Grosso do Sul. A chamada “aposentadoria compulsória” aos 75 anos é o que levará a coordenadora dos Serviços Gerais do Fórum de Campo Grande, há 20 anos no cargo, a passar para a inatividade, muito a contragosto, claro.

Viúva faz pouco tempo, perdeu também sua mãe recentemente. Mãe de duas mulheres já adultas (uma delas morando nos EUA), Enedina conta que as pessoas com quem precisava se preocupar em casa já não estão mais por perto. Então sua vontade era continuar no Fórum. E olha que ela já chegou a ligar na Gestão de Pessoas para saber se não tinha outra opção.

Ela ingressou no Judiciário aos 36 anos de idade. O desemprego do marido levou a dona de casa, por indicação de uma ex-vizinha que trabalhava no TJ, a participar da seleção para o cargo de agente de serviços gerais que estava sendo feita no Edifício Cosmos, sede do Tribunal de Justiça naquele tempo.

A vaga era para a limpeza no prédio do Fórum. Ela não tinha experiência na área e a remuneração oferecida não chegava a um salário mínimo, o que não atenderia a necessidade da família. Embora aprovada na entrevista, foi agradecer a ex-vizinha pela indicação quando soube que o cargo sofreria um reajuste de mais de 100%. Animada com a notícia, pegou dinheiro emprestado com o irmão e chegou às 17 horas no prédio Cosmos, no último dia para a entrega dos documentos. Isso depois de ter levado um ´banho´ de um carro que cruzou seu caminho e pedir socorro a uma amiga, dona de um pensionato, para secar seu vestido a ferro.

Entrou em exercício em fevereiro de 1983 e as fortes chuvas que assolavam a cidade levaram o prédio do Fórum, que na época funcionava na Avenida Fernando Corrêa da Costa, a entrar em colapso com as constantes inundações na garagem do subsolo, falta de energia e elevadores parados. Nada funcionava. Até a água das torneiras estava em falta e os primeiros dias na limpeza praticamente foram sem muito o que fazer.

Quando as coisas normalizaram, ela praticamente não chegou a atuar no setor, pois surgiu uma vaga para telefonista e a colocaram na função. A recém-contratada não entendia nada de PABX e aquele monte de luzes piscando dos ramais, mas foi rapidamente capacitada e logo já dominava o ofício. E foi assim que, contratada para os serviços gerais, virou telefonista do Fórum, função que exerceu por muitos anos.

Todas as ligações, naquele tempo, eram via telefonista. Enedina e sua colega anotavam o nome e o ramal de quem pedia uma chamada e depois transferia. Número de delegacias ela sabia de cor e tinha uma lista feita a mão dos telefones mais pedidos. Fora isso, recorria às listas amarelas. Com o tempo, o setor foi aumentando, assim como a demanda. Mais colegas se juntaram, dividindo-se em dois turnos. Também vieram as regras para que os servidores já informassem o número desejado, para dar mais vazão ao grande número de ligações.

No início dos anos 90 foi convidada para auxiliar no setor de administração interna do Fórum, onde começou a adquirir conhecimento na função que desempenha até hoje, responsável por controlar a chegada de material para fazer café e limpeza do prédio, e outras funções como controle de suprimento de fundos, acompanhamento da equipe das dedetizações e controle das ascensoristas. Tudo isso quando não existiam cargos específicos para todas essas tarefas. Enfim, uma espécie de ´faz-tudo´ atenta a todos os detalhes.

Quando houve a reformulação dos cargos para o novo prédio do Fórum, no início dos anos 2000, ela foi convidada para chefiar a coordenadoria de Serviços Gerais, ficando assim responsável pelo contrato terceirizado da copa e mais tarde da limpeza e jardinagem. Rigorosa na fiscalização, o que hoje mais exige sua atenção é o fornecimento dos materiais de acordo com o que consta na licitação. Papel de mão ou higiênico de qualidade inferior, ela recusa o recebimento e é assim com todos os contratos.

Costuma ainda circular pelos banheiros conferindo a limpeza e se está faltando algum material. O mesmo vale para o entorno do prédio, como se há planta precisando de uma poda ou folhas caídas. Também organiza as mesas, talheres, toalhas e todo o material que será usado no almoço durante os júris populares ou em eventos e comemorações. O mesmo vale para a qualidade do café servido.

Primando sempre para que o prédio esteja com tudo em ordem, ela afirma que hoje está numa fase mais tranquila, mas confessa que não descansa muito não. Inclusive já foi alertada por alguns colegas sobre sua conduta incansável, a qual explica que foi adquirindo pelo costume mesmo, ao longo dos anos, muitos deles trabalhando como auxiliar na administração.

Tocando o setor há duas décadas, ela conta também que sempre teve chefes muito bons e uma equipe parceira. Hoje, com diversos contratos sob sua alçada, ela e as ´meninas´ dividem as tarefas de produção de relatórios, fiscalização da copa, fornecimento de gás, suprimento de fundos, fiscalização da jardinagem, entrega de materiais, uniformes, funcionários terceirizados faltantes, prestação de contas ao Tribunal e demais itens da lista.

“Eu gosto do Fórum e sempre gostei. Fiz o concurso depois e me tornei servidora efetivada, mas nada mudou. Toda a vida fiz meu serviço com dedicação. Sou responsável por manter tudo em ordem. Na minha casa, se estiver sujo, depois eu limpo. No Fórum não. Tenho que cobrar e gosto das coisas bem-feitinhas. Recebi cinco elogios na minha ficha funcional. Não é muito, mas eu tenho. Então se estou aqui até hoje, acredito que é porque algo de certo fiz e eu gosto também, senão não teria ficado até a expulsória”, explica bem-humorada.

Aliás, nesses quase 40 anos trabalhando no Fórum, desde a época de telefonista Enedina nunca foi chamada a atenção por ninguém pela falta de empenho no trabalho. Assistiu muitos colegas levando ´bronca´, mas, aliviada, encerra sua carreira em breve com conduta inabalável.

Texto: Ascom TJ-MS