Mistura de etanol na gasolina deve subir para 32%; veja os riscos apontados para os carros

9
(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Especialistas citam possibilidade de maior consumo, corrosão de componentes e aumento dos gastos com manutenção

A decisão do governo federal de ampliar a participação do etanol anidro na gasolina deve trazer impactos que vão além dos postos de combustíveis. Previsto para ser anunciado nesta terça-feira (14) pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), o aumento da mistura de 30% para 32% reacendeu o debate entre especialistas, montadoras e representantes da indústria automotiva sobre possíveis reflexos no desempenho e na durabilidade dos veículos.

Embora a medida faça parte da estratégia de ampliar o uso de biocombustíveis no país, engenheiros e profissionais da área de manutenção afirmam que motores mais antigos ou sem calibração específica para essa concentração de etanol podem sofrer maior desgaste ao longo do tempo.

Segundo especialistas, um dos principais pontos de atenção está na compatibilidade dos materiais que compõem o sistema de alimentação. Componentes como tanque de combustível, bomba, boia, mangueiras, bicos injetores, vedações, pistões e a própria câmara de combustão precisam suportar uma concentração maior de etanol sem comprometer o funcionamento do motor.

O engenheiro e diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), Rogério Gonçalves, explica que o principal risco envolve corrosão e desgaste de peças do sistema de injeção eletrônica.

Caso isso ocorra, os motoristas podem enfrentar falhas no funcionamento do veículo, aumento do consumo de combustível, elevação das emissões de poluentes e, em situações mais graves, danos à bomba de combustível e aos bicos injetores.

Outro efeito esperado é o aumento do consumo. Isso ocorre porque o etanol possui menor poder calorífico que a gasolina, ou seja, fornece menos energia durante a combustão. Apesar dessa diferença, especialistas avaliam que, no uso diário, a variação pode ser pequena e dependerá das características de cada veículo.

Os maiores impactos tendem a atingir automóveis fabricados há duas ou três décadas, especialmente aqueles equipados com carburador ou sistemas de injeção eletrônica mais simples, que não conseguem ajustar automaticamente a nova proporção entre gasolina e etanol.

Nesses casos, podem surgir dificuldades na partida a frio, oscilações na marcha lenta, perda de potência, engasgos durante acelerações e funcionamento em temperaturas mais elevadas.

Além disso, oficinas especializadas alertam para o ressecamento de borrachas, mangueiras e vedações, favorecendo o aparecimento de vazamentos. Também há preocupação com a oxidação de bombas de combustível e bicos injetores, além da redução da vida útil das velas de ignição e do entupimento mais rápido dos filtros de combustível.

Os custos desses reparos podem ser elevados, principalmente para proprietários de veículos importados. Em alguns modelos premium, um único bico injetor pode custar mais de R$ 1,2 mil, enquanto uma bomba de combustível ultrapassa R$ 1,9 mil, sem considerar a mão de obra.

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) afirma apoiar o avanço dos biocombustíveis e reconhece a importância do etanol para reduzir as emissões de carbono. No entanto, a entidade defende que qualquer aumento da mistura obrigatória seja precedido por testes rigorosos de engenharia.

Segundo o presidente da Anfavea, Igor Calvet, o setor automobilístico busca apenas a garantia de que motores, sensores e componentes estejam preparados para operar com segurança na nova composição do combustível.

A posição é compartilhada pelo Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças), que também considera indispensável a realização de ensaios técnicos antes da adoção definitiva da medida.

Já a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) sustenta que a proposta foi construída dentro do programa Combustível do Futuro e baseada em estudos realizados pelo Instituto Mauá de Tecnologia.

Segundo a entidade, os testes avaliaram veículos leves e motocicletas movidos exclusivamente a gasolina e concluíram que a ampliação da mistura para 32% é tecnicamente viável, sem identificar prejuízos ao desempenho, à dirigibilidade, à partida a frio ou à durabilidade dos motores avaliados.

A Unica também afirma que a produção nacional de etanol será suficiente para atender à nova demanda. A expectativa é de um acréscimo de aproximadamente 4 bilhões de litros na próxima safra, volume superior ao necessário para abastecer o mercado com a mistura E32.

Além de ampliar a participação de um combustível renovável produzido no Brasil, a entidade estima que a mudança poderá reduzir em cerca de 800 milhões de litros por ano a necessidade de importação de gasolina.