Semana de esforço concentrado dá vitórias a Lula, mas trava votação da escala 6×1

9
Motta, Lula e Alcolumbre (Foto: Divulgação)

Governo aprovou medidas sobre importações, terras raras e data centers, enquanto duas PECs ficaram pendentes

A semana de esforço concentrado no Congresso terminou com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva contabilizando avanços em pautas importantes, mas também com duas das principais bandeiras do Planalto ainda sem caminho definido: o fim da escala 6×1 e a PEC da Segurança Pública. As medidas avançaram em comissões, mas não chegaram à etapa decisiva dos plenários.

O resultado mantém o governo dependente de uma nova articulação com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), para tentar levar a PEC que reduz a jornada de trabalho à votação depois do primeiro turno das eleições. Alcolumbre sinalizou que o tema será analisado somente após o pleito, sem especificar se antes ou depois de eventual segundo turno.

O Congresso não está oficialmente em recesso, mas a atividade parlamentar perdeu ritmo com o avanço do calendário eleitoral. Durante a semana de esforço concentrado, entre 31 de agosto e 4 de setembro, deputados e senadores reduziram compromissos de campanha para concentrar as votações. Com o encerramento da semana, a tendência é de que muitos parlamentares voltem aos estados para a campanha.

A possibilidade de votar a escala 6×1 ainda em outubro passou a ser discutida pelo governo. A estratégia seria aproveitar uma semana de trabalhos prevista para depois do primeiro turno para tentar aprovar a proposta antes de um eventual segundo turno da eleição presidencial.

A PEC, porém, ainda precisa passar pelo plenário do Senado em dois turnos. O texto já avançou na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), mas não pode ser promulgado sem a aprovação dos senadores.

Crise no STF aumenta pressão sobre Alcolumbre

A articulação em torno da pauta trabalhista ocorre em meio ao aumento da tensão política envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF).

Alcolumbre passou a ser pressionado por senadores da oposição para analisar pedidos de impeachment contra ministros da Corte. O presidente do Senado, por sua vez, tem defendido o ministro Alexandre de Moraes e criticado a atuação de adversários políticos.

O cenário adiciona uma dificuldade à negociação do governo para aprovar a 6×1. Além da tramitação legislativa, o Planalto precisa manter uma relação política com o comando do Senado em meio à disputa eleitoral.

PEC da Segurança também ficou pelo caminho

Outra prioridade do governo que não avançou até a votação definitiva foi a PEC da Segurança Pública.

A proposta conseguiu avançar na CCJ do Senado, mas ainda existem destaques pendentes de análise. A expectativa dentro do governo é de que o texto não seja votado pelo plenário antes das eleições.

A PEC pretende ampliar a integração entre os órgãos de segurança pública e estabelecer novas regras de organização e financiamento do setor. A proposta é considerada uma das principais apostas do governo para apresentar resultados na área de segurança.

Governo comemora fim da ‘taxa das blusinhas’

Se as duas PECs ficaram pendentes, o governo conseguiu uma vitória em uma das medidas consideradas prioritárias por Lula: o fim da chamada “taxa das blusinhas”.

A medida provisória que acaba com a cobrança do Imposto de Importação para compras internacionais de até US$ 50 foi aprovada pela Câmara e pelo Senado durante o esforço concentrado. A proposta agora segue para sanção presidencial.

A cobrança de 20% havia sido criada para remessas internacionais nessa faixa de valor. O fim da tarifa foi defendido pelo governo e negociado diretamente com os presidentes da Câmara e do Senado.

A mudança, no entanto, enfrenta críticas de representantes da indústria e do comércio brasileiro, que alegam que a isenção pode aumentar a concorrência de produtos importados sobre empresas nacionais.

Terras raras ganham política nacional

Outro resultado considerado positivo pelo governo foi a aprovação da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.

O projeto aprovado pelo Senado cria uma política voltada à pesquisa, exploração, processamento e desenvolvimento tecnológico relacionado a minerais considerados estratégicos para a economia. A proposta também prevê mecanismos para estimular investimentos no setor.

O tema ganhou peso político diante do interesse internacional pelas reservas brasileiras de minerais críticos, incluindo as chamadas terras raras, utilizadas na fabricação de equipamentos eletrônicos, tecnologias avançadas e componentes da indústria de energia.

O projeto segue para sanção do presidente Lula.

Redata também foi aprovado

O Congresso também aprovou o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, conhecido como Redata.

A medida cria incentivos tributários para estimular a instalação e expansão de centros de processamento de dados no país. O objetivo é atrair investimentos para uma área considerada estratégica diante do crescimento da demanda por armazenamento e processamento de informações.

O custo estimado da desoneração é de R$ 5,2 bilhões em 2026. O texto aprovado prevê benefícios para equipamentos e investimentos destinados à estruturação dos data centers.

O que ficou pendente

Ao final da semana de esforço concentrado, o governo conseguiu aprovar três de suas principais pautas — o fim da “taxa das blusinhas”, a política para minerais críticos e o Redata —, mas não concluiu a tramitação das duas PECs consideradas estratégicas.

A escala 6×1 deve voltar ao centro das negociações após o primeiro turno, enquanto a PEC da Segurança ainda depende da conclusão da análise na CCJ e de votação no plenário.

A próxima janela de votação poderá ocorrer já durante o período eleitoral, colocando Congresso e governo diante de uma nova disputa entre a agenda legislativa e a campanha pela Presidência da República.