Ofertas abusivas de crédito atingem 35 idosos por dia no Brasil

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Aumento das denúncias é atribuído ao escândalo do INSS e à conscientização (Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)

Reclamações voltam a crescer após queda e acendem alerta para golpes ligados a consignados e benefícios

Uma média de 35 idosos por dia denuncia ofertas abusivas de crédito no Brasil — um dado que escancara a vulnerabilidade desse público diante de práticas financeiras irregulares e que voltaram a crescer após um período de queda. Levantamento do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), mostra que 13.081 pessoas entre 60 e 70 anos registraram reclamações em 2024 na plataforma Consumidor.gov. O número representa uma retomada no aumento de denúncias, após uma tendência de queda observada desde 2022.

O pico histórico dos últimos oito anos ocorreu em 2021, quando cerca de 28 mil casos foram notificados. Depois disso, os registros caíram gradualmente, chegando a 5,9 mil em 2024, antes de voltarem a subir no ano seguinte.

Segundo o advogado do Idec, Igor Marchetti, o recorde de 2021 está relacionado ao contexto da pandemia de Covid-19. “As pessoas estavam mais vulneráveis, e muitas instituições financeiras intensificaram a oferta de crédito. Nesses momentos, o consumidor pode acabar aceitando propostas desvantajosas”, explica.

Já a alta mais recente estaria ligada à maior visibilidade de fraudes envolvendo benefícios previdenciários, como o escândalo do INSS e denúncias de empréstimos consignados. “Quando as pessoas têm mais acesso à informação e passam a reconhecer irregularidades, o número de reclamações tende a crescer”, afirma.

A advogada Marcele Roberta Pizzatto, especialista em Direito Previdenciário e do Consumidor, alerta que os crimes financeiros contra idosos têm se tornado cada vez mais frequentes no país. Entre os principais problemas estão a liberação de crédito sem consentimento e a cobrança de juros abusivos.

“Essas práticas são ilegais e violam direitos básicos. Nenhum empréstimo pode ser contratado sem autorização expressa do consumidor. Ainda assim, muitos idosos relatam encontrar valores ‘disponíveis’ em suas contas sem saber que se tratam de crédito com encargos”, destaca.

Como se proteger

Especialistas apontam que a informação é a principal ferramenta de prevenção. A orientação é desconfiar de qualquer valor liberado sem solicitação prévia, especialmente quando apresentado como parte do benefício.

Entre os cuidados recomendados estão:

  • Não aceitar ofertas por telefone ou mensagens;
  • Nunca fornecer dados pessoais ou bancários;
  • Exigir contrato detalhado antes de fechar qualquer acordo;
  • Buscar a presença de alguém de confiança em atendimentos presenciais.

A advogada reforça que o Código de Defesa do Consumidor garante o direito à informação clara e adequada, e a falta de transparência pode caracterizar prática abusiva.

O que fazer em caso de golpe

Se houver suspeita de contratação indevida, a recomendação é agir rapidamente. O primeiro passo é procurar o banco para contestar a operação. Também é possível registrar reclamação em órgãos de defesa do consumidor, como o Procon, além de buscar orientação jurídica.

Segundo a especialista, decisões judiciais têm reconhecido com frequência o direito à anulação desses contratos, com devolução de valores cobrados indevidamente e, em alguns casos, indenização por danos morais.

Atenção dentro das agências

As irregularidades não se restringem ao ambiente digital. Há relatos de práticas abusivas dentro das próprias agências bancárias, quando valores são apresentados sem explicação clara de que se tratam de empréstimos.

Sinais de alerta incluem:

  • Liberação de valores sem solicitação;
  • Falta de explicação sobre juros e parcelas;
  • Uso de linguagem técnica ou confusa;
  • Pressa para concluir a contratação.

Especialistas reforçam que a cautela e o acesso à informação são fundamentais para evitar prejuízos, especialmente entre idosos, considerados um dos grupos mais expostos a esse tipo de prática.