“E o Bernal?”: Morto aos 60 anos, ex-prefeito foi do auge absoluto ao caos definitivo da vida pública

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Alcides Bernal (Foto: Arquivo/Rede Social)

Uma vida marcada por reviravoltas extremas chegou ao fim nesta segunda-feira (13), um dia antes de completar 61 anos. Alcides Jesus Peralta Bernal, ex-prefeito de Campo Grande, morreu na Santa Casa, após ser levado novamente à unidade no fim de semana, quando voltou a passar mal no Presídio Militar, onde estava preso desde 24 de março deste ano. A causa da morte ainda não foi divulgada pelas autoridades.

Nascido em Corumbá no dia 14 de julho de 1965, Bernal chegou a Campo Grande aos 15 anos e construiu uma trajetória que passou pela locução em rádios, pela advocacia criminal e por cargos eletivos — sendo protagonista de momentos inéditos na política sul-mato-grossense, como a cassação e o posterior retorno ao cargo de prefeito, além de disputas judiciais que o acompanharam até os últimos dias.

De radialista a prefeito com mais de 270 mil votos

Formado em Direito pela Faculdades Unidas Católicas de Mato Grosso (Fucmat), Bernal começou sua carreira como radialista, ganhando projeção na capital antes de se lançar à política. Em 2004, foi eleito vereador; quatro anos depois, reelegeu-se com a maior votação já registrada para o cargo até então. Em 2010, chegou à Assembleia Legislativa como deputado estadual, integrando as comissões de Direitos do Consumidor e de Direitos Humanos.

A grande conquista veio em 2012: eleito prefeito de Campo Grande com mais de 270 mil votos, correspondendo a 62,55% dos válidos no segundo turno. Na ocasião, rompeu com a ordem estabelecida ao unir apoios de PSDB e PT contra o então governo do PMDB, que comandava a capital havia duas décadas — uma aliança inédita para um candidato do Partido Progressistas (PP), até então considerado fora do círculo de poder local.

Mesmo antes de assumir o cargo, sua campanha foi cercada de polêmicas: em setembro de 2012, o diretor-geral do Google Brasil chegou a ser detido pela Polícia Federal por não remover do ar vídeos que faziam acusações graves contra Bernal, como supostos incentivo ao aborto e prática de crimes variados. Outras controvérsias vieram à tona, como empréstimo a cooperativa de táxis, processo por pensão alimentícia e crítica da ONG Transparência Brasil sobre projetos considerados sem relevância na legislatura.

Cassação histórica e retorno controverso

Em 2014, Alcides Bernal entrou para a história como o primeiro prefeito de Campo Grande a ter o mandato cassado. Dos 29 vereadores da época, 23 votaram pela perda do cargo, sob acusação de irregularidades em contratos emergenciais — denúncia apresentada por dois empresários em setembro de 2013, que apontavam contratações sem justificativa válida.

Na tribuna da Câmara, ele negou qualquer desvio e defendeu suas medidas como forma de “proteger o interesse público”. O vice-prefeito Gilmar Olarte assumiu a prefeitura em seu lugar, mas a batalha judicial continuou: em maio de 2014, uma decisão concedeu liminar para o retorno imediato de Bernal, que marchou com aliados até o Paço Municipal e ocupou o cargo — apenas para ser afastado novamente oito horas depois, em nova decisão do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS).

Só em 25 de agosto de 2015, quase um ano e cinco meses após a cassação, a 1ª Câmara Cível do TJMS determinou seu retorno definitivo, por dois votos a um. Ao reassumir, declarou em entrevista à imprensa: “A Justiça pode tardar, mas não falha”. Ficou no cargo até o fim do mandato, em 2016, quando tentou a reeleição, porém, foi derrotado e ficou fora até mesmo da disputa do segundo turno por uma diferença de apenas 2.630 votos.

Últimos anos: disputas de terra, dívidas e acusação de homicídio

A partir de então, Bernal não conseguiu mais se eleger para cargo algum. Fora da política, problemas judiciais continuaram a marcar sua rotina. Em 2025, a Justiça determinou seu despejo de uma fazenda em Sidrolândia, devolvendo a posse ao proprietário por falta de pagamento de arrendamento firmado em 2019 — o dono alegou ter assinado o contrato sem compreender todas as cláusulas, por ser analfabeto funcional.

Em março deste ano, Bernal assassinou com dois tiros o fiscal tributário Roberto Carlos Mazzini, de 61 anos, na sua casa situada na Rua Antônio Maria Coelho. A vítima tinha arrematado o imóvel em um leilão por R$ 2,4 milhões — valor 36% menor que a avaliação inicial de R$ 3,7 milhões, e foi tomar a posse, com um chaveiro, quando acabou surpreendida pelo próprio Bernal.

Em sua versão, Bernal afirmou ter sido avisado pelo sistema de segurança da entrada de três pessoas na residência e agido em legítima defesa. Disse ainda que acionou o Samu logo após os disparos e se entregou voluntariamente à polícia. Em 30 de junho, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou seu pedido de liberdade, menos de uma semana depois de o TJMS decidir que ele seria julgado pelo Tribunal do Júri.

Luta pela liberdade humanitária e o desfecho

Nos últimos meses, a defesa de Bernal travou uma batalha paralela pela sua saúde: foram apresentados três pedidos de prisão domiciliar e dois de habeas corpus. O último, protocolado com urgência, pedia a revogação da prisão preventiva com base em laudos médicos que revelavam o quadro grave do ex-prefeito: já havia sofrido três infartos, apresentava obstruções de 70% a 80% nas artérias coronárias e reoclusão de 90% em um stent antigo, além de hipertensão, diabetes, depressão grave e crises de pânico agravadas pelo confinamento.

Os médicos alertaram para risco elevado de morte súbita e alegaram que o Presídio Militar não dispunha de estrutura para atendimento emergencial cardíaco. No dia 30 de junho, Bernal chegou a ser internado na Santa Casa para procedimento cardíaco, recebeu alta e retornou à unidade prisional — apenas para passar mal novamente no fim de semana, um dia após a Justiça negar o pedido de prisão domiciliar.

Nota de pesar

A Câmara Municipal de Campo Grande manifestou uma nota de pesar pelo falecimento de Alcides Bernal. “Neste momento de dor, a Casa de Leis se solidariza com familiares e amigos”,ressata o texto.

O presidente da Câmara Municipal de Campo Grande, vereador Epaminondas Neto, publicou Ato da Presidência que declara Luto Oficial de três dias no âmbito da Casa de Leis, conservando-se a bandeira hasteada a meio-mastro.