O indígena Daniel Lemes Vasques (PCO), de 47 anos, foi oficializado como candidato a governador de Mato Grosso do Sul. Ele participa de sua quinta eleição, sendo a primeira para o cargo executivo estadual.
Os dados dele foram incluídos na plataforma de divulgação e prestação de contas da Justiça Eleitoral (Divulgacand). A candidata a vice-governadora na chapa pura do partido é a também indígena Silvia Benites (PCO).
Daniel Lemes é da etnia Guarani Kaiowá, natural de Amambai, tem o ensino superior completo e atua como professor de ensino fundamental. Ele não declarou bens e valores no seu nome.
No currículo, o candidato tem uma longa militância em prol da causa indigena, é membro do Conselho Nacional de Política Indigenista (CNPI) e atua na Aty Guasu, principal assembleia das lideranças guarani-kaiowá do estado
Plano de governo
O Partido da Causa Operária (PCO) apresentou seu programa para as eleições de 2026 com uma plataforma que se distancia da lógica tradicional de programas eleitorais. Intitulado “Programa de Luta — Eleições 2026”, o documento afirma que o partido não participa do processo eleitoral para fazer promessas, mas para utilizar as eleições como instrumento de propaganda das reivindicações que considera fundamentais para a população trabalhadora. O lema central apresentado é “Revolução, Governo Operário e Comunismo”.
Segundo o documento, o PCO considera as eleições um “terreno secundário” da luta política e sustenta que mudanças estruturais não seriam conquistadas pelo voto, mas pela organização e mobilização dos trabalhadores. O programa defende a formação de um governo próprio das organizações operárias, camponesas e de outros setores explorados.
Entre as principais propostas econômicas está a reposição integral das perdas salariais e um aumento emergencial de 50% nos salários. O partido também propõe uma escala móvel de salários, com reajustes automáticos sempre que o custo de vida subir 3%, e estabelece como referência um salário mínimo vital de pelo menos R$ 7.500, segundo o próprio documento. Outra proposta é transformar o Bolsa Família em um benefício de pelo menos um salário mínimo enquanto durar a atual situação de “caos”.
Jornada de 35 horas e medidas contra o desemprego
Para enfrentar o desemprego, o PCO propõe reduzir a jornada de trabalho para no máximo sete horas diárias, cinco dias por semana, totalizando 35 horas semanais, sem redução salarial. O programa também prevê a proibição de demissões e a ocupação e controle dos trabalhadores sobre empresas que demitam funcionários ou ameacem fechar.
O texto prevê ainda seguro-desemprego equivalente ao último salário recebido pelo trabalhador demitido, proibição de despejos e de cortes de serviços essenciais para desempregados e passe livre no transporte público para desempregados e trabalhadores da economia informal.
Revogação das reformas e mudanças na Previdência
Outro eixo central é a revogação das reformas trabalhista e previdenciária. O partido defende o restabelecimento e a ampliação da legislação de proteção aos trabalhadores e o fim da terceirização. Para aposentadorias e pensões, propõe a reversão das medidas que considera prejudiciais e estabelece aposentadoria após, no máximo, 25 anos de trabalho para mulheres e 30 anos para homens.
O programa também propõe cobrar dívidas de grandes empresas com a Previdência, inclusive mediante tomada do controle dessas empresas pelo Estado, se necessário. Para financiar o sistema previdenciário, defende imposto sobre grandes fortunas e a gestão dos fundos previdenciários pelos trabalhadores.
Estatização e reestatização de empresas
Na área econômica, o PCO propõe cancelar as privatizações realizadas e reestatizar empresas que foram entregues ao setor privado. Entre os exemplos citados estão Eletrobras, Vale, bancos e empresas de telefonia. O programa também defende a Petrobras 100% estatal, sob controle dos trabalhadores, e a nacionalização de reservas minerais e refinarias.
O partido propõe ainda reduzir imediatamente em 50% o preço dos combustíveis e acabar com a política de paridade com o dólar. Em relação às chamadas terras raras, defende a criação de uma empresa estatal responsável pela exploração dessas riquezas sob comando dos trabalhadores.
Mais recursos para serviços públicos
O documento propõe ampliar os recursos destinados à saúde, educação e demais serviços essenciais e acabar com o teto de gastos e com a Lei de Responsabilidade Fiscal. Também defende o fim da terceirização no serviço público, estabilidade para servidores contratados precariamente e concursos públicos periódicos para recomposição dos quadros.
Na educação, o partido propõe ensino público gratuito, aumento das verbas destinadas ao setor e utilização de recursos públicos exclusivamente no ensino público. Entre as medidas estão o fim dos vestibulares e a adoção do livre ingresso nas universidades, além de um piso nacional de R$ 8,5 mil para professores e jornada máxima de 30 horas semanais.
O programa também propõe a eleição direta de diretores e demais cargos de gestão nas escolas e um modelo de governo tripartite — formado por estudantes, professores e funcionários — nas universidades. Outra proposta é a estatização do ensino pago.
Na saúde, o PCO defende mais recursos para o sistema público, um plano emergencial para construir hospitais e postos de saúde, a retomada do Mais Médicos e a validação imediata de diplomas de médicos brasileiros e estrangeiros residentes no país. O partido propõe ainda a abertura de cursos de medicina e enfermagem com livre acesso nas universidades públicas e um piso salarial de R$ 8 mil para profissionais da saúde.
Reforma agrária e habitação
No campo, o programa defende uma reforma agrária baseada na expropriação dos latifúndios e no assentamento imediato de milhões de trabalhadores sem terra. Também propõe a demarcação e posse de terras para indígenas, além da ocupação de latifúndios para garantir terra e produção de alimentos.
Para enfrentar o déficit habitacional, o PCO propõe a expropriação de imóveis vazios pertencentes a especuladores, a proibição de despejos e um plano nacional para construir milhões de moradias populares. Segundo o programa, a iniciativa também teria como objetivo gerar empregos e deveria ocorrer sob controle dos trabalhadores.
Segurança, imprensa e liberdade de expressão
Um dos pontos mais radicais do programa está na área de segurança pública. O PCO defende a dissolução da Polícia Militar e de todo o aparato repressivo, além do direito de autodefesa para trabalhadores do campo e da cidade e da formação de comitês de autodefesa.
Na comunicação, o partido propõe o cancelamento da concessão da Rede Globo e de outros grandes meios de comunicação que, segundo sua formulação, cometeriam “crimes contra o País”. O programa defende a estatização dessas empresas sob controle dos trabalhadores, ao mesmo tempo em que reivindica liberdade irrestrita de expressão e internet gratuita para toda a população.
Bancos, Judiciário e sistema político
O programa também propõe a estatização do sistema financeiro e a criação de um banco estatal único sob controle dos trabalhadores. Entre as medidas econômicas estão a redução imediata dos juros, o fim da independência do Banco Central e o cancelamento das dívidas externa e interna com bancos e grandes credores. O partido também defende a substituição de impostos sobre consumo e salários por tributação dos ganhos dos capitalistas e das grandes fortunas.
No campo institucional, o PCO defende o direito irrestrito de greve, liberdade total de organização política e partidária e o cancelamento de leis que considera restritivas, citando como exemplos a Lei da Ficha Limpa e a cláusula de barreira. O documento também propõe o fim do Supremo Tribunal Federal e a eleição de juízes e procuradores pelo voto popular, com mandatos revogáveis.
Política externa e cultura
Na política externa, o programa se posiciona contra a ingerência estrangeira na Amazônia e defende a soberania nacional sobre os recursos da região. O texto também declara apoio a Cuba, Nicarágua e Venezuela e à luta política na Bolívia, além de se posicionar contra a influência dos Estados Unidos e da Organização dos Estados Americanos na América Latina.
Na área cultural, o partido defende investimentos públicos em manifestações como carnaval, samba e futebol. Propõe o fim da perseguição às torcidas organizadas e o controle dos clubes por torcedores e trabalhadores do setor, além de patrocínio público para festas populares sob controle das organizações populares e dos trabalhadores da cultura.
Ao final, o PCO rejeita explicitamente a política de conciliação com setores que classifica como “golpistas e neoliberais” e afirma que pretende organizar uma mobilização popular contra futuros ataques aos trabalhadores, independentemente do resultado das eleições. O programa conclui defendendo um governo formado por organizações operárias e camponesas, “sem patrões e sem golpistas”.
O documento é datado de agosto de 2026, e apresenta, portanto, uma plataforma eleitoral que combina reivindicações econômicas imediatas — como aumento de salários, redução da jornada e ampliação dos serviços públicos — com uma proposta de transformação radical da estrutura política e econômica do país, tendo como horizonte declarado a revolução, o governo operário e o comunismo.











