Estudo da USP aponta que a falta de valorização real de aposentadorias e programas sociais afetaria o comércio, os empregos e a economia local
A falta de reajustes acima da inflação em aposentadorias e programas sociais poderia afetar não apenas as famílias que dependem desses recursos, mas também o comércio e os empregos nos municípios do interior de Mato Grosso do Sul. Um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), estima que a renda agregada dessas cidades poderia ficar até 6,5% menor caso os benefícios não tivessem valorização real.
A pesquisa analisa o peso de aposentadorias, Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC) na economia de cerca de 4 mil municípios brasileiros que não integram regiões metropolitanas. Nessas localidades, as transferências do governo têm participação significativa na renda das famílias e ajudam a sustentar a atividade econômica.
O percentual estimado para Mato Grosso do Sul é o mesmo projetado para São Paulo, Mato Grosso, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. No conjunto dos municípios do interior analisados, a redução da renda poderia variar de 6,8% a 10,8%, dependendo da região.
Benefícios movimentam o comércio
De acordo com o levantamento, famílias de baixa renda destinam boa parte dos valores recebidos à compra de alimentos, produtos e serviços essenciais. Com isso, o dinheiro retorna rapidamente à economia local, beneficiando estabelecimentos comerciais, trabalhadores e a arrecadação dos municípios.
A economista Luiza Nassif, co-diretora do Made-USP, afirma que os benefícios podem responder por quase metade da renda das famílias mais pobres. Segundo ela, os recursos são utilizados principalmente para despesas básicas, o que mantém o dinheiro circulando nos próprios municípios.
A diferença entre as cidades do interior e os grandes centros aparece em estados como o Ceará. Conforme o estudo, os benefícios sociais e previdenciários correspondem a 22% da renda agregada da capital e da região metropolitana, enquanto, no interior, a participação chega a 40%.
Simulação considera período sem ganho real
Para calcular os possíveis efeitos, os pesquisadores compararam a evolução dos benefícios entre 2022 e 2025 com um cenário semelhante ao registrado de 2019 a 2022, período em que não houve ganho real do salário mínimo.
A simulação aponta que a ausência de valorização acima da inflação teria reduzido a renda das cidades do interior. O impacto não ficaria restrito a quem recebe aposentadorias ou programas sociais: a diminuição dos recursos em circulação também afetaria famílias e negócios que dependem indiretamente do consumo local.
As maiores retrações estimadas aparecem no interior do Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí, onde a renda agregada poderia cair entre 17% e 18%. No Amazonas, em Sergipe e em Pernambuco, a redução ficaria próxima de 15%.
Já no Ceará, Maranhão, Alagoas e Bahia, a perda projetada varia de 10% a 13%. Mato Grosso do Sul está entre os estados com estimativa de queda de até 6,5%.
Estudo aponta risco de aumento da pobreza
O levantamento também avalia os efeitos da falta de reajustes reais sobre a pobreza. Para famílias com renda de até 1,5 salário mínimo por pessoa, os benefícios sociais e previdenciários podem representar até metade dos rendimentos.
Segundo as projeções, cerca de 2,7 milhões de pessoas que vivem em municípios fora das regiões metropolitanas poderiam ter passado à pobreza se os benefícios não tivessem registrado ganhos reais entre 2022 e 2025. Desse total, aproximadamente 2,4 milhões poderiam ter chegado à extrema pobreza.
Em números absolutos, os maiores impactos seriam registrados na Bahia, com até 336 mil pessoas a mais na pobreza; em São Paulo, com até 263 mil; e em Minas Gerais, com até 251 mil. Maranhão, Pará e Ceará também poderiam ter mais de 200 mil pessoas nessa situação, cada um.
Para Luiza Nassif, os resultados indicam que a política de valorização das aposentadorias, do BPC e dos programas de transferência de renda tem consequências que ultrapassam o orçamento das famílias atendidas, alcançando também a economia dos municípios.





















