Num mundo de relações pessoais e profissionais cada vez mais instáveis, saltam aos olhos exemplos de pessoas que demonstram comprometimento e constância nas funções que desempenham. Erothildes Queiroz é uma dessas pessoas. Ela ocupou o cargo de distribuidora do Fórum de Campo Grande por mais de meio século.
Ingressou como distribuidora, partidora e contadora do Poder Judiciário de Mato Grosso no longínquo ano de 1954, com apenas 18 anos de idade, ocupando a vaga deixada pelo primo. Em 1968 foi efetivada no cargo em que esteve à frente por 55 anos, até se aposentar, aos 73 anos, em 2009.
A função de partidora e contadora com o tempo foi repassada para outros encarregados, mas quando iniciou no Judiciário precisou executar a tarefa que compreendia cálculos muito difíceis. Teve como principal auxiliador o ilustre advogado Heitor Medeiros, que hoje dá nome ao Fórum da Capital. “Ele era muito inteligente, bom e correto”, recorda Erothildes.
Num mundo ainda muito distante de computadores como ferramentas de trabalho, o sorteio na distribuição dos processos novos era feito utilizando um globo de bingo. Pós-sorteio, cada cartório tinha um carimbo para identificar o destino da petição inicial. Ela conta que acumulou muitos livros que documentavam os sorteios e coletavam a assinatura do Juiz Diretor do Foro, o qual atestava a lisura do ato.
Casou-se e teve três filhos, mas seu esposo a apoiou para continuar na ativa. Com a ajuda dele e de sua mãe, Erothildes pôde conciliar a maternidade com o trabalho. Naquele tempo, o cartório distribuidor era um serviço delegado como serventia extrajudicial.
Anos mais tarde empregou dois de seus filhos e uma neta. Aliás, o do meio era seu substituto legal no cartório distribuidor, o que o impediu de participar de uma viagem em família, se diverte Erothildes. Ela tinha fechado um pacote de navio para a Europa, deixando ele de fora, muito a contragosto. “Mas ele era meu substituto, tinha que ficar”, justifica.
Erothildes acompanhou muitas mudanças no Judiciário ao longo dos anos e recorda da turma maravilhosa que iniciou o TJMS com a instalação do Estado em 1979 e o funcionamento inicial do órgão na Câmara de Vereadores. Recorda também dos bons tempos de contatos pessoais mais próximos com advogados, magistrados e o público em geral.
Viúva desde 2013, narra que seu esposo tocava uma fazenda da família e nem sempre estava na cidade, mas sempre que podia a levava de mãos dadas ao trabalho. Embora ele nunca tenha confessado o motivo do hábito, Erothildes acredita que, de certo modo, podia ser uma forma de se mostrar presente, sobretudo num universo predominantemente masculino de advogados e juízes.
Mas não havia com o que se preocupar já que postura e ética profissional sempre foram suas marcas. Nesse universo de tanto contato com o público, muitas vezes os falatórios mais diversos chegavam até seu ouvido. No entanto, qualquer que fosse a situação, aquela conversa morria ali.
Buscou sempre manter os serviços em dia, afinal os juízes eram exigentes. Outro ponto marcante de sua trajetória foi a busca por se manter atualizada. Logo que os computadores pessoais se popularizaram no país, por volta de 1995, Erothildes tratou logo de contratar um técnico para digitalizar e modernizar seu cartório. Sua vasta experiência a tornou referência no setor, auxiliando no treinamento de muitos novos distribuidores que ingressavam na função.
Depois de tantos anos de dedicação, Erothildes acredita que parou na hora certa. Embora continue na ativa na vida pessoal, nos altos de seus 86 anos, ela dirige, viaja, passeia, se dedica à espiritualidade e à família, e perpetuou durante sua longa história no Judiciário muito aprendizado e boas recordações para quem teve a oportunidade de trabalhar ao seu lado.
Fonte: Ascom TJ-MS


















