
País registrou mais de 2,26 milhões de casos de estelionato em 2025, enquanto fraudes digitais avançam e desafiam autoridades
Os golpes aplicados contra brasileiros alcançaram um novo recorde em 2025 e consolidaram o estelionato como o crime patrimonial mais registrado no país. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, foram contabilizados 2.261.055 boletins de ocorrência no ano passado, o maior número da série histórica iniciada em 2018.
O levantamento, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), aponta que os registros cresceram 2,7% em comparação com 2024 e impressionantes 429,8% em relação a 2018, quando foram registrados 426.799 casos. Desde então, a quantidade de ocorrências praticamente quintuplicou, ultrapassando a marca de 2 milhões em 2023 e mantendo trajetória de alta.
Segundo especialistas, a expansão dos golpes está diretamente ligada à digitalização das relações financeiras e comerciais, que ampliou as oportunidades para criminosos. Ao mesmo tempo, o aumento da conscientização da população também fez crescer o número de vítimas que procuram a polícia para registrar tanto fraudes consumadas quanto tentativas de golpe.
Para o advogado criminalista Lourival Tenório de Albuquerque, a combinação entre o avanço tecnológico e a maior disposição das vítimas em denunciar explica parte do crescimento das estatísticas.
O anuário também revela uma mudança no perfil da criminalidade brasileira. Enquanto indicadores relacionados a crimes tradicionais, como homicídios, furtos e roubos, vêm apresentando queda, os estelionatos seguem em ritmo acelerado, impulsionados principalmente pelas fraudes praticadas em ambiente digital.
Golpes pela internet lideram crescimento
Os dados mostram que os estelionatos eletrônicos tiveram avanço ainda maior. Em 2025, foram registrados 346.753 casos desse tipo de fraude, alta de 20,6% em relação aos 286.226 registros de 2024.
Na avaliação do professor de Segurança Pública do Ibmec Brasília, Fagner Dias, o ambiente digital oferece condições favoráveis para a atuação dos criminosos. Segundo ele, golpes aplicados pela internet permitem ações à distância, com uso de identidades falsas, dificultam a produção de provas e reduzem as chances de responsabilização dos autores.
Mais de 97% dos casos não chegam à Justiça
Apesar do elevado número de ocorrências, o anuário chama atenção para a baixa punição dos responsáveis pelos golpes.
Dos mais de 2,26 milhões de boletins registrados em 2025, apenas 63.771 deram origem a processos penais, enquanto somente 4.819 pessoas foram presas por estelionato. Na prática, mais de 97% dos casos não chegaram ao Poder Judiciário.
Para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, essa baixa responsabilização fortalece a atuação de organizações criminosas, que passaram a utilizar o estelionato como uma importante fonte de financiamento. O relatório destaca que os golpes deixaram de ser praticados, em grande parte, por criminosos isolados e passaram a integrar estruturas organizadas.
WhatsApp, cartões e Pix estão entre os golpes mais comuns
O levantamento aponta os principais golpes sofridos pelos brasileiros:
- Clonagem ou troca de cartão bancário (45%);
- Golpe do WhatsApp (34%);
- Falsa central bancária (31%);
- Golpe do Pix (24%);
- Uso indevido de CPF por SMS (13%);
- Lojas virtuais e leilões falsos (10%).
Especialistas defendem integração entre bancos, empresas e polícia
Para conter o avanço das fraudes, especialistas defendem uma atuação conjunta entre o poder público, instituições financeiras e empresas de tecnologia.
Fagner Dias avalia que ampliar a educação digital da população e reforçar a proteção de dados são medidas essenciais para reduzir o número de vítimas.
Já o advogado Lourival Tenório propõe a criação de um banco de dados nacional integrado com informações sobre contas bancárias e números de telefone utilizados em golpes, permitindo uma identificação mais rápida dos criminosos.
Na mesma linha, o especialista em segurança pública Berlinque Cantelmo defende maior integração entre polícias, bancos e operadoras de telefonia para agilizar o bloqueio de contas e linhas telefônicas usadas nas fraudes, aumentando a eficiência das investigações e dificultando a ação das quadrilhas.




















