Levantamento mostra que quase 70% da tarifa corresponde a custos como distribuição, transmissão, impostos e encargos
Ter uma matriz energética com forte participação de fontes renováveis não significa, necessariamente, pagar menos pela eletricidade. No Brasil, a conta de luz é formada por uma série de custos que vão além da energia consumida, como distribuição, transmissão, impostos e encargos setoriais. Um estudo recente mostra que esses componentes representam a maior parte do valor desembolsado pelos consumidores.
Em 2025, apenas 30,4% da tarifa correspondia ao custo da energia propriamente dita. O restante era dividido entre distribuição, transmissão, encargos e tributos, segundo levantamento do economista Daniel Duque, da Fundação Getulio Vargas (FGV), encomendado pelo Centro de Liderança Pública (CLP).
Como o valor da conta de luz é dividido
De acordo com o levantamento, a composição média da fatura em 2025 era a seguinte:
| Componente | Participação na conta |
|---|---|
| Energia consumida | 30,4% |
| Distribuição | 26,1% |
| Tributos | 18,1% |
| Encargos setoriais | 15,2% |
| Transmissão | 10,1% |
Na prática, em uma conta de R$ 1 mil, cerca de R$ 304 correspondem à energia propriamente dita. Os outros R$ 696 são destinados aos demais custos que fazem parte do sistema elétrico.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) explica que a tarifa inclui despesas com a geração, o transporte e a distribuição da eletricidade, além de encargos estabelecidos por lei e tributos cobrados pelos governos federal, estaduais e municipais.
Entre os encargos estão recursos destinados a programas sociais e subsídios para determinados setores, como a irrigação na agricultura. Também pesam na fatura os custos relacionados à Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), que financia diferentes políticas públicas do setor.
Brasil tem energia mais cara que a de 77 países
Outro levantamento do CLP comparou as tarifas residenciais de 138 países, considerando a paridade do poder de compra — indicador que permite avaliar quanto a eletricidade pesa no orçamento da população em diferentes economias.
Nesse levantamento, o Brasil aparece na 66ª posição, com tarifa equivalente a US$ 0,357 por quilowatt-hora (kWh), considerando o ajuste pelo poder de compra. O valor é superior ao registrado em 77 países, incluindo nações com matrizes elétricas semelhantes, como Canadá, Noruega e China.
Na China, por exemplo, a tarifa comparada pelo mesmo critério foi de US$ 0,155 por kWh. No Canadá, ficou em US$ 0,146.
O estudo também aponta que as perdas no sistema de transmissão e distribuição contribuem para elevar os custos. Nesse grupo estão problemas técnicos, furtos de energia, fraudes e falhas de medição, cujos impactos acabam sendo considerados no cálculo das tarifas.
O economista Daniel Duque, da FGV e responsável pelo levantamento, defende maior integração entre os governos federal, estaduais e municipais para reduzir essas perdas e melhorar a eficiência do sistema. C
Conta de luz pesa no condomínio e na indústria
O impacto das tarifas aparece também nas despesas de condomínios residenciais. Na Zona Norte do Rio de Janeiro, um empreendimento com mais de 400 apartamentos e cerca de 3 mil moradores registra uma conta de energia de aproximadamente R$ 40 mil por mês.
Segundo o síndico profissional Jorge Lima, o gasto representa entre 20% e 40% do custo total do condomínio. O valor elevado, de acordo com ele, limita a possibilidade de realizar novos investimentos e melhorias na estrutura do residencial.
Na indústria, a eletricidade também representa uma parcela importante dos custos de produção. Empresas que dependem de refrigeração, máquinas e funcionamento contínuo de equipamentos sentem diretamente os efeitos das tarifas.
Uma indústria de processamento de pescado, que mantém câmaras frias com temperaturas de até 25 graus Celsius negativos, investiu em duas usinas solares, substituiu equipamentos por modelos mais eficientes e passou a utilizar inteligência artificial para administrar o consumo.
Com as medidas, a empresa conseguiu reduzir em aproximadamente 30% os gastos com energia elétrica.
O que pode ser feito para reduzir os custos
O levantamento aponta que mudanças na estrutura do setor elétrico poderiam diminuir o valor final pago pelos consumidores. Entre os caminhos estão a redução de perdas na rede, a revisão de subsídios e encargos e o aprimoramento das regras que determinam a contratação de energia.
O estudo também questiona exigências legais que obrigam a contratação de determinadas fontes de geração, como termelétricas e pequenas centrais hidrelétricas, quando alternativas poderiam ter custos menores.
A conclusão é que a participação elevada de fontes renováveis na matriz elétrica brasileira não se traduz automaticamente em uma conta mais barata. Para que essa vantagem chegue às famílias e às empresas, é necessário reduzir os custos acumulados entre a geração da eletricidade e sua chegada ao consumidor.





















