Fachin terá decisão sobre possível investigação contra Alexandre de Moraes

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Moraes e mulher negam irregularidades nas interações e contratos mencionados (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

André Mendonça retirou o sigilo de relatório da PF e defende que novos elementos sejam analisados pelo plenário do Supremo

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, terá a palavra sobre o próximo passo de um dos casos mais delicados que chegaram à Corte neste ano. Caberá a ele definir se e quando o plenário do tribunal analisará os elementos reunidos pela Polícia Federal sobre a relação entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

A discussão ganhou força após o ministro André Mendonça, relator dos processos relacionados à Operação Compliance Zero, retirar nesta terça-feira (1º) o sigilo de um relatório da PF que reúne mensagens, registros de contatos e referências a encontros entre Vorcaro e um número identificado no celular do empresário como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.

Mendonça afirmou que os novos elementos devem ser submetidos ao plenário do Supremo em uma sessão presencial e pública. Segundo ele, o colegiado é a instância responsável por analisar, de forma técnica e jurídica, as informações apresentadas pela Polícia Federal.

O relatório tem 218 páginas e foi elaborado a partir da perícia realizada no celular apreendido de Vorcaro. Segundo o documento, foram encontrados vestígios de mensagens, registros de encontros e tratativas envolvendo o ex-banqueiro, Moraes e pessoas próximas ao ministro.

O material, porém, não conclui que Alexandre de Moraes tenha cometido crime. A própria PF ressalta que a análise não foi exaustiva, foi realizada em prazo de 72 horas e não envolveu diligências específicas contra ministros do STF ou integrantes do Ministério Público.

O que está em discussão

O ponto central agora é saber se os elementos reunidos pela PF justificam a abertura de uma investigação formal contra Moraes.

Antes de uma eventual apuração, a Procuradoria-Geral da República (PGR) foi chamada a se manifestar. O procurador-geral Paulo Gonet, entretanto, pediu a nulidade e o arquivamento do procedimento que resultou no relatório, segundo informações divulgadas nesta quarta-feira (2).

Mesmo diante da posição da PGR, Mendonça indicou que pretende levar o caso ao plenário. A definição da data da sessão cabe a Fachin, presidente do STF.

A eventual análise dos ministros não significa, por si só, que Moraes será considerado culpado ou que tenha cometido alguma irregularidade. O que poderá ser discutido é se existem elementos suficientes para autorizar uma investigação.

Mensagens encontradas no celular

De acordo com o relatório da PF, Vorcaro utilizava o aplicativo de notas do iPhone para escrever mensagens, fazia capturas de tela e depois encaminhava as imagens pelo WhatsApp.

Os peritos encontraram arquivos temporários em PDF que reproduziam o conteúdo das notas, o que foi utilizado como elemento de confirmação da origem das mensagens. Em determinados registros, a sequência de criação da nota, captura da tela e envio pelo WhatsApp foi identificada pelos investigadores.

O contato para o qual as mensagens foram encaminhadas estava salvo no aparelho como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.

O gabinete de Moraes contesta a interpretação apresentada sobre as mensagens e afirma que o ministro não recebeu os conteúdos citados nas reportagens. Também classificou como falsa a afirmação de que teria mantido conversas com Vorcaro.

Pedidos relacionados ao Banco Master

Entre os conteúdos analisados pela PF estão mensagens nas quais Vorcaro demonstra preocupação com as investigações envolvendo o Banco Master.

Em registros de outubro e novembro de 2025, o ex-banqueiro teria discutido estratégias relacionadas às ações da Polícia Federal e do Ministério Público. Em determinadas mensagens, aparecem referências a Andrei Rodrigues, então diretor-geral da PF, e Paulo Gonet, procurador-geral da República.

O relatório também registra pedidos atribuídos a Vorcaro para tentar retardar medidas relacionadas às investigações.

Em outro trecho, o empresário manifesta gratidão ao contato identificado como Moraes e afirma que sua família, funcionários e parceiros teriam uma “dívida de vida” com o ministro e sua família. A PF, contudo, não conclui a partir dessa mensagem qual seria a razão da gratidão mencionada.

Relatório cita encontros

O documento também reúne referências feitas por Vorcaro a encontros com alguém identificado como Alexandre.

Segundo o relatório, há registros de mensagens de 2024 e 2025 nas quais o empresário relata a terceiros que estava com “Alexandre de Moraes” ou que iria encontrá-lo.

Em pelo menos um dos episódios, Vorcaro teria informado que estava com Moraes e, em outras ocasiões, mencionou encontros envolvendo o ministro e outras pessoas.

A PF, porém, faz uma ressalva: esses registros são relatos feitos por Vorcaro a terceiros e, isoladamente, não comprovam que todos os encontros mencionados tenham efetivamente ocorrido.

Reportagem publicada pela Folha de S.Paulo também apontou mensagens em que Vorcaro teria procurado Moraes pouco antes de sua prisão, inclusive questionando se deveria deixar o país.

Contrato com escritório da mulher de Moraes

Outro ponto citado no relatório envolve o escritório Barci de Moraes, de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.

Segundo a PF, em janeiro de 2024 foi enviada a Vorcaro uma minuta de contrato de prestação de serviços jurídicos. Os metadados do documento indicaram alterações feitas por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.

A versão final previa honorários mensais de R$ 3 milhões, e o contrato assinado chegou a aproximadamente R$ 131 milhões. O relatório também registra pagamentos realizados posteriormente ao escritório.

A defesa de Viviane afirma que o contrato foi regular e que o escritório efetivamente prestou serviços jurídicos ao Banco Master. Segundo a defesa, a atuação envolveu uma equipe de 15 advogados, 94 reuniões e 36 pareceres entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025. O escritório também afirma que não atuou em processos do Banco Master no STF.

Evento em Londres

O relatório ainda descreve tratativas relacionadas a eventos realizados ou planejados em Londres.

Segundo os registros, Vorcaro teria organizado encontros e eventos envolvendo autoridades, inclusive ministros do STF. Em 2024, mensagens mencionam a participação de Moraes e tratativas sobre a programação e logística.

No ano seguinte, também aparecem mensagens relacionadas a um novo evento, que acabou cancelado.

O que diz a PF

A Polícia Federal não afirma no relatório que Moraes tenha cometido crime.

O documento diz que a investigação buscou identificar integrantes de uma suposta rede de influência e monitoramento atribuída a Vorcaro e analisar elementos encontrados no material apreendido.

A PF também ressalta que não realizou diligências específicas contra ministros do STF ou integrantes do Ministério Público e que as conclusões podem ser alteradas com o avanço das investigações.

O que acontece agora

Com a retirada do sigilo, o caso passa a ter um novo capítulo dentro do Supremo. Mendonça defende que o plenário analise os elementos em uma sessão presencial e pública.

Fachin é quem poderá definir a data e a inclusão do processo na pauta. A partir daí, os ministros poderão discutir se existem elementos que justifiquem a abertura de uma investigação contra Moraes.

A PGR, por outro lado, se posicionou pela nulidade do procedimento e pelo arquivamento do relatório, o que cria uma divergência sobre o caminho a ser seguido.

A decisão do Supremo não representará, necessariamente, uma conclusão sobre eventual crime. O que estará em debate é se os elementos reunidos até agora são suficientes para justificar uma investigação formal.

Enquanto isso, Moraes nega ter mantido as conversas atribuídas a ele por Vorcaro, e a defesa de Viviane Barci de Moraes sustenta a regularidade da relação profissional entre o escritório e o Banco Master.

O próprio relatório da PF ressalva que a análise ainda não é definitiva e que novas diligências poderão modificar o entendimento sobre os fatos.