
Divulgação de dados apreendidos com ex-banqueiro provocou reação de Moraes e colocou Fachin diante de um novo embate institucional
A crise interna no Supremo Tribunal Federal (STF) ganhou novos capítulos nesta semana e colocou ministros da Corte, a Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Polícia Federal no centro de uma disputa envolvendo as investigações sobre o Banco Master. O conflito se intensificou depois que o ministro André Mendonça retirou o sigilo de um relatório da PF que reúne mensagens e registros de encontros entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do banco.
O documento, elaborado a partir de dados encontrados no celular de Vorcaro, tornou públicas conversas que indicam uma relação próxima entre o empresário e Moraes. Segundo o relatório, também foram identificados encontros entre os dois entre 2024 e 2025. O conteúdo passou a ser usado como elemento central da crise que envolve diferentes integrantes das instituições responsáveis pela investigação do caso.
A divulgação do material provocou reação de Moraes. O ministro acusou Mendonça de possíveis irregularidades na condução das investigações e pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, que fosse aberta uma apuração contra o colega. Entre as acusações apresentadas estão suspeitas de abuso de autoridade, improbidade administrativa e atuação fora das regras previstas para a condução das investigações.
Em meio ao embate, Fachin adotou uma postura de contenção institucional. O presidente do STF determinou que Moraes e Mendonça, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, apresentem informações sobre os fatos em prazo de cinco dias. A medida faz parte de um procedimento destinado a esclarecer questionamentos relacionados à atuação dos diferentes órgãos no caso.
Fachin afirmou que a resposta da Corte deverá seguir a Constituição e a legislação. O ministro também defendeu que a gravidade das suspeitas não permite que autoridades deixem de observar as regras jurídicas. Depois das manifestações, caberá ao presidente do Supremo avaliar os próximos passos e, se entender necessário, levar o caso para análise do plenário.
O que aparece nas mensagens
De acordo com o relatório da Polícia Federal, mensagens encontradas no aparelho de Vorcaro mostram que o ex-banqueiro mantinha contato com Moraes e chegou a procurar o ministro sobre sua situação diante das investigações.
Em uma das conversas, registrada pouco antes da prisão de Vorcaro, o empresário questionou se deveria deixar o país. Ele acabou preso em novembro de 2025, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando tentava embarcar em um avião particular com destino a Dubai.
A PF também identificou indícios de pelo menos seis encontros entre Vorcaro e Moraes no período analisado. O relatório reúne ainda informações sobre contatos relacionados a eventos e outras interações entre os dois.
As mensagens também mencionam Paulo Gonet e Andrei Rodrigues. Segundo o material, Gonet aparece em conversas intermediadas pelo advogado Ciro Soares, enquanto Rodrigues é citado em uma conversa na qual Vorcaro discutia a possibilidade de influenciar o andamento das investigações.
PGR questiona atuação de Mendonça
A crise também colocou em lados opostos o relator do caso e a Procuradoria-Geral da República. Gonet apresentou parecer questionando a forma como a apuração foi conduzida por Mendonça e defendeu a nulidade do relatório.
Na avaliação da PGR, o ministro teria avançado sobre atribuições que não caberiam a ele na fase pré-processual, especialmente porque entre as pessoas mencionadas na investigação havia autoridades com foro no Supremo.
A Polícia Federal também passou a ser envolvida no conflito. Informações divulgadas nos últimos dias apontam que setores da corporação questionaram a forma como Mendonça determinou a produção do relatório sobre as conversas entre Moraes e Vorcaro.
Moraes também reage
Depois da divulgação do relatório sobre sua relação com Vorcaro, Moraes utilizou o inquérito das fake news para apresentar acusações contra Mendonça. O ministro apontou possíveis irregularidades na atuação do colega em investigações relacionadas ao Banco Master e a outros casos.
Entre as suspeitas levantadas estão interferência na condução de investigações da PF, participação em tratativas de colaboração premiada e eventual direcionamento de apurações por razões pessoais ou políticas.
Parte das acusações contra Mendonça se baseia em relatórios de inteligência produzidos pela própria Polícia Federal. Reportagens recentes apontam que documentos utilizados no contra-ataque de Moraes foram classificados internamente como de baixa confiabilidade e sem valor probatório, o que também passou a ser questionado dentro e fora da Corte.
O que pode acontecer agora
O próximo passo será a análise das manifestações de Moraes, Mendonça, Gonet e Andrei Rodrigues. Fachin deverá avaliar as informações antes de decidir se o caso será submetido ao plenário do Supremo.
A eventual abertura de uma investigação formal contra um ministro da Corte também dependerá de deliberação do próprio STF. Especialistas ouvidos sobre o caso avaliam que a questão deverá enfrentar obstáculos no plenário e que, antes de qualquer investigação, será necessário discutir a validade dos procedimentos e dos relatórios que deram origem ao conflito.
Enquanto isso, a crise ampliou o debate sobre os limites da atuação de ministros, a relação entre o Supremo e a Polícia Federal e a necessidade de regras de conduta para integrantes da Corte. Fachin já defendeu a criação de um código de ética para magistrados e também mencionou a necessidade de fortalecer os mecanismos institucionais do tribunal.
O episódio ocorre às vésperas das eleições de 2026 e em um ambiente de forte disputa política em torno do Supremo, aumentando a repercussão das decisões que serão tomadas nos próximos dias.




















